INÍCIO, MEIO E FIM

Tudo na vida tem um início, um meio e um fim. Mais uma obviedade daquelas, certo?
Acredito que ninguém duvida disso, dada a transitoriedade da natureza humana. No entanto, arrisco afirmar que poucos estejam preparados para entender o que isso significa.
Meu projeto do Canal da Mancha foi um exemplo disso. Teve um início no momento em que tive a inspiração de ir. Teve um meio muito trabalhoso e duro de ser cumprido. Teve um fim apoteótico que eu pouco consegui curtir, dados os níveis de cansaço e estresse atingidos naquele momento. Mas acabou.
O momento da inspiração - acima definido como "início" - também teve seu início, seu meio e seu fim - afinal, decidir-se pelo Canal não foi uma decisão fácil e imediata. E assim podemos seguir subdividindo os eventos indefinidamente. Proponho, no entanto, que possamos focalizar nos pontos mais importantes, pois afinal de contas, este texto também tem um fim e, pelo que sabemos, ele está se aproximando...

Sua vida teve um início, está em seu meio e um dia terá um fim. Você já pensou sobre isso? Pense um pouco no que você vai deixar de bom para a humanidade. Não, você não precisa ficar famoso, não precisa virar político nem milionário para marcar sua presença nestes poucos instantes de vida que lhe são outorgados. A vida é como um "se vira nos trinta" com uma escala de tempo ligeiramente ampliada. Quando você menos perceber, seu tempo estará se acabando... Não pretendo ser dramático em meu discurso, apenas levá-lo a ver algumas coisas sob um prisma diferente.

O seu carro que você tanto adora, também terá um fim. Pode ser na semana que vem em um acidente imprevisto ou daqui a quatrocentos anos quando um inesperado terremoto atingir o museu onde ele estará exposto no planeta em órbita de alpha-centauro, para onde nossa civilização se mudou, fugindo do cataclismo terrestre provocado por ela mesma no ano de 2347 d.C., levando alguns poucos espécimes para preservar a memória de seus ancestrais.

Seu trabalho tem um início, um meio e um fim. Quer dizer, primeiramente espero que tenha um início, se você hoje faz parte das estatísticas brasileiras. Depois disso, podemos analisar onde você se encontra...

1. Se você for político, seu mandato um dia acaba. Está certo que o dinheiro por você desviado vai demorar um pouco a mais para acabar - estima-se em algumas gerações - mas também acaba.
2. Se você é um executivo na iniciativa privada e por vezes sente que estão querendo terminar com sua carreira, você faz o que pode para postergar o fim. Quando menos percebe, é promovido! Aí, já acabou.
3. Se você - assim como milhões de brasileiros em situação similar - é um daqueles que está confortavelmente trabalhando num órgão governamental, é apadrinhado do ACM, do Jader Barbalho ou de outro pistolão qualquer e não sabe exatamente o que faz por que é difícil falar sobre o nada, saiba que essa moleza um dia vai acabar. Provavelmente depois do terremoto em alpha-centauro. Mas acaba.
4. Se você é consultor - esse já começa sabendo que vai terminar - você já dispõe desta sabedoria. Trabalhe ainda mais!

A lojinha do Jacó também terá seu final. O Big-Mac, a torcida do Corinthians e o crediário das Casas Bahia também. É como dizem: "Na vida, tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador".

Porém nem tudo que chega ao seu final tem uma conotação negativa. O que nos dá a impressão de pesar é a falta de continuidade observada quando um projeto chega ao seu final. Do contrário, isto é, quando se observa um horizonte à frente, só há razões para comemorar.
A Travessia do Canal da Mancha foi um exemplo claro disso.
No dia da Travessia - isso foi em 23 de agosto de 2003 - estávamos eu e mais dois nadadores no porto de Dover para o encontro com nossos pilotos e tripulações para iniciarmos nossas travessias individuais. Meus companheiros eram Jorge Rikarday, um mexicano e Eric Blakeley, um inglês. O mexicano era muito experiente, já havia participado de várias travessias internacionais. Não era meu caso, talvez o mais inexperiente dos três. Em nossa rápida conversa, Jorge virou-se para mim e deixou-me uma de suas pérolas, dizendo:
- Quando você estiver lá no meio, nadando e cansado, tire o máximo proveito de cada momento, por que ele não voltará jamais. Esta oportunidade é única e tem que ser "curtida" ao máximo.
Aquilo me fez pensar. Eu mal sabia se iria suportar o frio, o cansaço e a distância numa das provas mais difíceis do mundo. Meu histórico indicava que eu provavelmente vomitaria durante metade da prova, prejudicando a ingestão de alimentos, tornando o risco de hipotermia cada vez mais patente. E aquele gringo ainda vem dizer que eu deveria aproveitar cada momento!
Mas eu decidi dar-lhe ouvidos. Sua versão tinha algo de muito verossímil: eu não voltaria ali tão cedo - talvez nunca mais voltasse. Então fazia sentido: eu tinha que aproveitar ao máximo daquela experiência, por menos que ela pudesse parecer agradável.
E, quando eu estava no meio daquele "marzão", com navios enormes que passavam ao largo, com o maior túnel do mundo exatamente sob o meu trajeto, convivendo com outras formas de vida em cujo habitat me intrometi sem ser convidado, percebi que o Canal tinha vida própria e que aquilo deveria ser visto como uma oportunidade única.
Assim, ao final da primeira hora, parei para me alimentar e percebi que aquela parada não mais voltaria. Assim foi com as demais paradas. Após seis horas, passei a fronteira imaginária entre Inglaterra e França, isto é, já estava em águas francesas. Eu não mais voltaria às águas inglesas - pelo menos nadando, não! Naquele momento, elas passaram a fazer parte de meu passado. E o passado, com toda a força que esta palavra tem, é um capítulo já escrito no livro de sua vida. Sem direito a revisões.
Por essa razão, as palavras do mexicano me vinham à mente - eu tenho que aproveitar, eu vou aproveitar. Mesmo que as condições não sejam as melhores.

Assim é a vida.
Nem sempre o mar está calmo, nem sempre as condições são favoráveis, nem sempre você se sente confortável. Mas, se você tem um objetivo e quer persegui-lo até o final, pois sabe que o final daquela empreitada é apenas o começo de uma outra ainda mais apaixonante, então você prossegue sem vacilar. E busca viver cada momento.
Infelizmente poucos são os que sentem assim. E um número ainda menor vive assim.

Ao final de dez horas e quarenta e cinco minutos, minha aventura no Canal acabou (meus colegas mexicano e inglês devem ter aproveitado mais: eles concluíram a Travessia em 20h24min e 20h30min, respectivamente).
Sentia-me tão cansado que não consegui "curtir" todas as emoções que aqueles momentos mereciam. Mas estava profundamente realizado. Por ter atingido um daqueles finais que representam apenas a oportunidade de recomeçar. O desafio agora seria outro, igualmente desafiador: conseguir transmitir um pouco do que aprendi em função daquela imensidão da natureza. Mostrar aos amigos, familiares, à opinião pública que o ser humano, pequeno e insignificante perante a grandeza do mar, é capaz de lidar com seus ciclos Início-Meio-Fim de modo construtivo e engrandecedor.

Hoje, tomo alguns momentos de minha vida para registrar algumas destas lições. Que elas possam servir de orientação a alguém que esteja vivendo intensamente entre seus inícios e meios, por que inevitavelmente, um dia, o fim chegará.
E, por falar nele:
FIM.

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© - Percival Milani