RENATA

É difícil falar sobre quem você não conheceu. Por esta simples razão, talvez seja esta pequena crônica uma das mais desafiadoras para mim, desde minha conquista no Canal da Mancha, em 23 de agosto de 2003.

Nesta data especial, aniversário de Travessia, decidi escrever sobre Renata Agondi e fazer-lhe uma homenagem.

Para os poucos que ainda não ouviram falar dela, Renata era uma nadadora como poucas no Brasil. Nascida em 1963 na cidade de Santos, era do signo de Aquário - talvez aí já começasse sua intimidade com o meio aquático. Para tornar uma longa história curta, desde criança demonstrou grande talento na natação, conquistando títulos e mais títulos em todos os níveis da natação brasileira. Não só em sua cidade natal, como também no Rio de Janeiro, onde passou bons anos de sua vida, sua carreira foi a de uma vencedora. Dominava provas de piscina e, posteriormente, também de águas abertas.

Tinha experiência internacional com ótimos resultados em provas de reconhecida dificuldade, como as Travessias Cápri-Nápoles, Bácoli e de Tranzimento, entre tantas outras.

Para quem quiser conhecê-la em ricos detalhes, sua história é maravilhosamente descrita por Marcelo Teixeira em seu livro, Revolution 9, da Editora Unisanta, em sua segunda edição, que considero um marco referencial na história da natação brasileira. Há uma versão que acompanha um DVD, com lindas imagens da vida de uma campeã. Sua história é, de fato, terna e comovente. Parabéns ao Marcelo por sua iniciativa.

No entanto, por aquelas razões que nos custam entender, ao buscar seu maior objetivo, a Travessia do Canal da Mancha, Renata veio a falecer em sua tentativa no ano de 1988, portanto, com apenas 25 anos de idade. Ainda me lembro de alguns noticiários da época, nos principais telejornais. Eu já estava sem nadar há cerca de dez anos, mas mantinha o costumeiro interesse de um ex-praticante do esporte.

Hoje em dia, por vezes fico imaginando que poderíamos estar nadando as mesmas provas nos Campeonatos e que teríamos muitos assuntos em comum. Hoje seríamos ambos Másteres D e seria um prazer encontrá-la nas travessias, admirá-la e trocar idéias sobre sonhos e conquistas comuns.

Afinal, falar sobre o Canal da Mancha, para quem já o fez, é tarefa fácil. Digo isso de experiência própria. Parece que, quando encontro outro (a) nadador (a), que já passou pela mesma experiência, as idéias fluem com facilidade, os assuntos são comuns, alguns gostos se assemelham e a vida parece que nos aproxima como se fôssemos conhecidos ou amigos de longa data.

Ainda me lembro que, a fim de construir o site sobre o Canal, tive a iniciativa de ligar para alguns (mas) nadadores (as) que já tinham atingido o mesmo objetivo e, apesar de nos conhecermos naquele momento, havia uma certa química já estabelecida na relação.
A título de exemplo, aconteceu comigo, quando liguei para a Ana Mesquita - que cruzou o Canal em 1993 - para pedir-lhe informações sobre sua Travessia. Também não nos conhecíamos, mas, em alguns poucos minutos, já estávamos trocando idéias sobre temas correlatos com extrema facilidade. Era assim:

- Sabe Ana, vai ter uma travessia de quarenta quilômetros saindo de Barra Bonita e descendo o Rio Tietê no próximo mês de janeiro. Que tal?
- UAU!!! Quarenta quilômetros! Nossa! QUE DELÍCIA! Nem me fala...

Além de todos os fatos acima mencionados, algumas coincidências entre nossas Travessias remetem-me invariavelmente à Renata.

Começamos pela data da Travessia: ambos - Renata e eu - iniciamos nossas tentativas no mesmo dia e mês: 23 de agosto. A temporada de travessias se dá exclusivamente dentro do verão europeu, devido à temperatura da água ser mais suportável. Por essa razão, a maioria esmagadora das travessias se dá nos meses de Julho, Agosto e alguns casos em Setembro. O próprio Capitão Webb iniciou sua travessia no dia 24 de agosto (de 1875), vindo a terminá-la somente no dia seguinte, após quase 22 horas de esforço vitoriano.

Ambos esperamos cerca de quatro dias dentro da semana favorável - a chamada neap tide - para iniciarmos a travessia. Imagino a ansiedade pela qual ela passou. Se for da mesma magnitude da que eu enfrentei, ela deve ter sentido um bocado. Não que seja algo facilmente manifestável a seus acompanhantes de viagem. Em momento algum lembro-me de ter comentado com meu irmão Paulo ou com meu técnico Agnaldo - que me acompanhavam na Inglaterra - que eu estava sentindo-me ansioso e que a visão do mar todos os dias sem a possibilidade de nadar ia aumentando o peso nas minhas costas a cada dia. Talvez a Renata pudesse ter comentado com a Judith, sua acompanhante na Travessia, se ela fosse menos hermética e mais comunicativa que eu. Mas, quem vê sua foto estampada no livro, olhando para as águas do Canal, percebe o nível de tensão provocado pela espera. Mesmo para uma nadadora tão experiente quanto ela.

Um terceiro fato que não posso deixar de mencionar é que ambos passamos exatamente o mesmo tempo na água: dez horas e quarenta e cinco minutos. No ritmo em que ela nadava - iniciou com oitenta braçadas por minuto - forte, mas dentro de seu estilo de prova - e pelos resultados obtidos em outras competições na mesma temporada, fica realmente difícil imaginar tudo o que ocorreu naquele dia fatídico.

Ambos tivemos a oportunidade de nadar durante o dia. A partida de Renata foi às 08h22min da manhã - provavelmente um pouco atrasada em relação à maré ideal, pelo que entendi nas entrelinhas do livro, mas nada que comprometesse seu desempenho. Minha partida foi às 07h44min, portanto, muito próxima à dela.

Um quinto fato que nos aproxima é sua inegável admiração pelos Beatles. Estar no país de seus ídolos deve ter sido motivo de grande alegria para Renata. Para mim, foi. Não sei o que ela pensou quando estava na Praia de Shakespeare, sozinha, esperando pela sirene de largada. Eu me peguei pensando na música "The long and winding road" - estupenda criação de Lennon e McCartney, com a presença de orquestra e coral deslumbrantes - numa referência evidente ao trajeto longo e sinuoso ("long and winding") que teria pela frente. Esta música contém trechos muito pertinentes à aventura de uma Travessia do Canal, como por exemplo:

"The long and winding road that leads to Your door will never disappear" (A estrada longa e sinuosa que leva à Sua porta nunca desaparecerá) - a letra maiúscula é minha adaptação.
E, se me permitem uma tradução livre com interpretação alusiva ao treinamento espartano que antecede a ida de um nadador ao Canal, arriscaria, para o magnífico trecho poético da referida canção, regado por violinos numa espiral crescente:
"Many times I've been alone…" - Muitas vezes estive sozinho - é comum que o nadador esteja muito só em seus treinos e em busca de seu sonho - quem nada sabe o quanto isso é real.
"… and many times I've cried." - e muitas vezes eu chorei - fato não incomum em situações de stress na busca por resultados.
"Anyway you'll never know the many ways I've tried." - de qualquer modo, você nunca saberá de quantos modos eu tentei - demonstra a luta pela perfeição de um atleta.
"But still they lead me back to the long and winding road." - Mas esses fatos me conduzem de volta à longa e sinuosa estrada - denota a recorrência dos objetivos de um atleta que não perde o foco de seu objetivo: o Canal.

E durante a travessia? Eu pensava na "Octopus's Garden", música leve e alegre, também interpretada pelos Beatles, que conta a história de um grupo de pessoas que era muito feliz por participar de uma festa no jardim de um polvo no mar. Ainda posso ouvir a guitarra fantástica de George Harrison, por quem Renata era realmente apaixonada. Algumas citações que me ocorrem, já numa tradução aproximada:
"Estaríamos aconchegados abaixo da tempestade, num pequeno esconderijo sob as ondas".
Ou ainda outro trecho:
"Oh, que alegria para todos os garotos e garotas, saber que estão alegres e a salvo."
Tem tudo a ver com o mar, além de ser alegre e reconfortante. Uma boa terapia mental para horas de exposição a um ambiente que nem sempre é tão positivo.

Poderia contar aqui várias outras composições dos Beatles cujos conteúdos poderiam ser vinculados aos feitos de Renata, mas deixarei essa discussão para outra oportunidade. Por agora, resta-nos dizer: é impossível saber o que se passava em sua cabeça naqueles dias, mas ouso afirmar, sem mesmo conhecê-la, que Renata buscava reforço para si na poesia destas e de tantas outras músicas inenarráveis dos Beatles.
Palavra de quem se aproximou sem nunca estar por perto.

Enfim, como dizia, é realmente difícil falar sobre quem você não conheceu. Mas, por ser maior que seu sonho, falar de Renata foi fácil...
... pelo que ela representa para a natação brasileira,
... por seu exemplo,
... por seu ato de coragem,
... por seu heroísmo.

Viverá eternamente nas mentes e nos corações de todos nós, especialmente dentro da comunidade aquática.

Hoje, Renata é um anjo a zelar por todos os brasileiros que tentam ou irão tentar a Grande Travessia. Acredito que ela zelou por mim em 2003, que partilhou de meus sentimentos - os bons e os maus - naqueles momentos. Ela conhecia a estrada longa e sinuosa, cantou comigo, estava na festa do nosso amigo polvo e até hoje, continua a torcer por todos os brasileiros que se aventuram no Canal.
Se existe um pedaço de mar no Céu, que ela esteja por lá.
Saudades...

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© - Percival Milani