LULA E A TRAVESSIA DA MANCHA

Era uma vez um nadador simplório do ABC, de classe operária, baixa estatura e quase nenhuma instrução que, pouco a pouco, começou a se destacar em meio a seus companheiros de natação. Não por que fosse um grande nadador - pelo contrário, era muito abaixo da média (com o cérebro e a velocidade de uma lula, quando comparada aos sábios e velozes golfinhos) - daqueles que não conseguiam sequer contar a metragem dos treinos ou de suas provas de piscina.
Mas lutava por sua classe e era só o que sabia fazer. Era conhecido pelo nome de "Lula", numa clara alusão à sua intimidade - e por que não, também sua falta de brilhantismo - com o mundo aquático.

Se já não era nenhuma sumidade na natação, suas chances em esportes correlatos rapidamente viraram pó. Do triatlo, por exemplo, foi sumariamente execrado por seus dirigentes - os patrocinadores simplesmente desapareceram - ao proferir sua cérebre frase:
- Hospedar da bicicreta é de pálstico.

Cada vez mais politizado, nadava cada dia menos e inflamava seus companheiros de treinamento. Defendia abertamente as travessias em águas abertas. A ponto de fundar (ou seria afundar?) o PT: Partido das Travessias. Mais tarde, outros nadadores influentes que manifestavam suas vertentes esportivas, fundaram cada um seus próprios conglomerados: havia o Partido das Piscinas, (PP), conhecido por seus delfins velhacos; o Partido dos Bronzeados (PSOL), que era contra as piscinas cobertas e contra tudo e todos; o Partido do Movimento Desportivo do Biribol (PMDB), cujo respeitado presidente jogou sua última e trágica partida na costa paulista em mar aberto, entre tantos outros.

Mas voltemos ao Lula: este nadador medíocre destacava-se em meio a outros igualmente ou mais despreparados que ele próprio. Não conseguia grandes resultados por seus próprios méritos, mas vivia questionando os árbitros e as regras da Federação Aquática Paulista, da CBDA e até mesmo da FINA. Dizia que, com este sistema capitalista selvagem adotado pelo país, a natação não poderia evoluir como era preciso e que outros modelos deveriam ser adotados.
Ficou conhecido por seu afrontamento ao FNI: Fundo Natatório Internacional. Pregou insistentemente o levante de seu país contra a organização.

Foi até Cuba. Conheceu o modelo socialista que estimulava o esporte para todos. Virou amigo de Fidel. Prometeu ao seu amigo que faria uma travessia nas cercanias da ilha e, em uma de suas tentativas, contam que um tubarão o atacou e levou-lhe o dedo mindinho da mão esquerda. Foi o único atacado no meio dos milhares de atletas que disputavam a prova. Falta de sorte? Não era essa a opinião dos organizadores: o mais provável seria mesmo algum tipo de incompetência generalizada...

Já não nadava mais - fazia mais sucesso como articulador de uma maioria socialmente desprovida que não tinha recursos para desenvolver-se na natação. Era muito discurso e pouca prática: o Romário da natação.
Lula não era Martin Luther King, mas também "tinha um sonho", como todos os nadadores de sua época. Sonhava que, um dia, poderia chegar a conquistar as condições necessárias para fazer a travessia mais importante de sua vida: a Travessia do Canal da Mancha. Aquele era o sonho de todos os nadadores, desde os mais capazes até ele próprio. Era o cume para sua carreira.
Sem muitas condições favoráveis, seu estilo era inapropriado e não lhe permitiria chegar muito longe na travessia. Seu técnico vivia corrigindo-lhe o estilo, mas pouco adiantava. Obviamente não conseguiu patrocínios importantes e, em sua primeira tentativa de ir para o Canal, não teve êxito. O recado da sociedade esportiva havia sido muito claro: ou Lula muda seu estilo, ou não chega lá.

O escolhido em seu lugar, Nadando Collor de Mello, amplamente patrocinado por empresários, fora um jovem de boa aparência e de origem nada humilde. Ele chegou até o Canal, mas não conseguiu terminar sua travessia. As ondas que se formaram durante a travessia o tiraram do desafio antes do tempo. Afinal, apesar de sua largada confiante, a turbulência tornou-se insustentável. Dizem que a embarcação SS PC Farias quase os atropelou e terminou com certos órgãos vitais arroxeados das gélidas águas do Canal. Uma diminuta espécie do fundo do mar, chamada de Polvinho - típica da região - também teve certa influência em sua desistência. Eles são muito numerosos e, quando se levantam, tornam as condições de travessia muito difíceis. Como resultado, foi substituído por um topetudo míope incapaz de nadar por seus próprios esforços e que fez mais sucesso no camarote da Brahma, como noticiado na mídia da época.

Mas Lula não desistia. Tentou mais uma vez, agora contra um veterano nadador amplamente reconhecido no meio aquático por ter trazido estabilidade econômica ao esporte, Nadando Henrique Cardoso. Até nota de dinheiro com a figura de uma tartaruga marinha ele implantou, para alegria de todos os maratonistas aquáticos e ecologistas marinhos. E o estilo de Lula continuou não implacando e, novamente, foi incapaz de atingir o Canal.
Terceira tentativa e o mesmo vexame. Lula perdera nova chance contra o experiente nadador da travessia passada. Este havia terminado sua primeira travessia com uma estabilidade marítima invejável e, apesar das condições desumanas do mar, seguia desejoso de continuar nadando. Assim, conseguiu completar sua travessia two-way, para alegria de seus conterrâneos e colaboradoes.

Finalmente, após muito se debater, Lula decide mudar seu estilo como os outros também faziam. Deixou de fazer críticas ao FNI, contratou um bom técnico, mudou a braçada, abriu mais as pernas, estas amplamente, dizem que vendeu até a mãe e escutou seus assessores, dentre eles, um tal de José Dirceu.
- Pare de fazer onda! Não espirra tanta água! Pode respingar em mim! - dizia o Dirceu.
Encontraram o momento ideal. Muitos patrocinadores - empresários que o criticavam num passado não muito distante, gente de peso de outros esportes - rinhas de galo, por exemplo - passaram a participar ativamente do governo em tempos de campanha. Era tudo o que precisava: dinheiro para financiar sua ida ao Canal.

Foi assim que atingiu seu grande objetivo. Lula havia chegado ao Canal após três tentativas anteriores fracassadas. Está certo que derrotou um candidato que seria imbatível no montanhismo, mas chegou lá.

No barco de acompanhamento - aquele que segue ao lado do nadador durante a travessia - toda a tripulação: Lance Oram, o tenaz e veterano piloto com seu barco Sea Satin, Mr. Crodge, o astuto e profissional Observador da Federação do Canal da Mancha e uma pequena comitiva formada por José Dirceu, Antonio Palocci, Roberto Jefferson, Luiz Gushiken, Delúbio Soares, Marcos Valério e Renilda, José Genoíno, Sílvio Pereira, Maurício Marinho, uma jornalista brasileira de um jornal francês e outros menos famosos. Não bastasse a numerosa base de apoio, carregavam consigo também uma quantidade de malas razoável: meia dúzia por membro da comitiva, perfazendo um total de cerca de sessenta malas.

O piloto e o observador não conseguiam acreditar no que viam e perguntavam, obviamente com aquele sotaque de pescador inglês que nem a mãe deles conseguia entender:
- Por que tantas malas? O que vocês levam aí dentro?
Mas a comitiva, já se antecipando a perguntas incômodas como aquela, já havia combinado sua versão: contariam que tratava-se de maltodextrina para a longa travessia que tinham pela frente. Sem titubear, Lula respondeu no melhor inglês de Garanhuns:
- It is moneydextrine. Understand?
Ao que todos da comitiva acenavam afirmativamente. Não por menos, pensavam orgulhosamente:
- Isso é que é boss inteligente! Domina o inglês como poucos!

- OK! , responderam os gringos. E passaram a dar instruções ao Lula sobre as regras da Travessia do Canal: A parte que se referia à alimentação ele entendeu, mas quando o Observador passou a lhe falar sobre o que ele NÃO podia fazer - não poderia sequer tocar no barco, não poderia receber ajuda dos amigos a bordo, não poderia usar roupas que melhorariam sua flutuação ou ofereceriam proteção térmica - Lula virou pro José Dirceu e disse:
- Zé, acho que ele não sabe como a coisa funciona. Depois, cê abre uma malinha e mostra pra ele, tá?

Aí, chegou a hora de passar a famigerada Graxa do Canal.
- Zé, vem aqui passar essa graxinha em mim. Eu quero ficar bem liso, feito um bagrão ensaboado para ninguém me perceber, understand? Não quero chamar a atenção do Polvinho, que está dormindo no fundo do mar.
- Você é quem manda, boss!

Finalmente chegou a hora da largada e Lula começou sua tão sonhada travessia. Nadava de braçada. No barco, no entanto, a festa corria solta, parecia que a comitiva não tinha limites. Chegou a primeira parada de alimentação. O Lula pede:
- Zé, me dá a malto! Tô com fome.
- Sabe, boss, enquanto você nadava, nos perguntávamos se você deveria consumir malto ou água. Não podíamos decidir sozinhos, você sabe. Tivemos que chamar as bases do partido, fizemos uma convenção, discutimos as diretrizes constitucionais e resolvemos chamar um referendo popular para decidir se é água ou malto. Óbvio que, neste meio tempo, para financiar as bases partidárias fizemos alguns empréstimos no Banco Rural, avalisamos com recebíveis de alguns fundos de pensão estatais e demos como garantia alguns contratos do Correio. Coisa rotineira, você sabe!
- Zé, faz como você achar melhor, mas num deixa o Polvinho acordar!

Mas Lula estava tão maravilhado com sua primeira travessia que não se importou com tudo aquilo e seguiu nadando. Assim, na próxima parada, também não conseguiu ingerir nenhum alimento. A comitiva se dividia entre os que festejavam no convés e os que se escondiam na cabine, como se estivessem contando dinheiro, de tão compenetrados que ficavam.

Assim a travessia seguia. Festa e descontração geral. Até passar ao largo uma enorme embarcação. Em seu frondoso casco, escrito em letras enormes, o nome: SS Waldomiro Diniz.
Apesar de longínqua, a embarcação gerou muita onda, a ponto de o José Dirceu quase cair do barco. Foi o suficiente para a comitiva começar a marear. O José Dirceu ficou verdinho, mas agüentou firme.
Mais uma parada para alimentação e Lula comenta:
- Zé, que ondas fortes, hein? Vê se toma cuidado pra não cair. A gente sabíamos que esse barco poderia aparecer. Percebi que o Polvinho se incomodou um bocado com ele.
- Deixa comigo, Boss. É o que eu sempre digo: o Boss tá certo!

Mas Lula seguia firme em seu propósito de concluir a travessia. Foi quando ouviu-se uma gritaria generalizada no barco, culminando com a voz forte de Roberto Jefferson, com sua garganta afinadíssima pelas aulas de canto, bradando para todos ouvirem:
- Navio dos Correios a bombordo!
Foi uma comoção geral. Alguns corriam pra a popa, outros vinham da proa. O espaço do barco era limitado, era difícil, quase impossível de fugir ou de mudar a situação. Não havia onde nem como se esconder. Todos carregavam suas malas. Até que se ouviu de um dos lados da embarcação um grande:
TCHIBUM !!!

Quando o Lula parou para se alimentar, perguntou pelo Zé. Ao que, o Palocci responde:
- O Zé caiu, boss!
Lula continuou nadando, como se nada tivesse acontecido. Se pudesse discursar naquele momento, diria:
- A resposta a toda essa turbulência é natação, natação e muita natação.

Mais um navio no horizonte, desta vez o SS Rural. Nova comoção a bordo. Não havia como se segurar, a instabilidade no barco era muito mais fortemente sentida pela comitiva que pelo próprio nadador. Ouviu-se vários TCHIBUMs. Estava cada vez mais difícil esconder toda aquela turbulência do Polvinho.

Na próxima parada de alimentação, o Lula pede pelos companheiros. O Palocci é quem responde:
- O Gushiken caiu, boss!
- Não pode ser!
- O Genoíno também caiu, boss !
- O Gê? Como pode? Ele era incaível...
- É. O Delúbio, o Sílvio e o Maurício também caíram, boss.
- Companheiro Palocci - pergunta Lula enquanto toma sua malto - quem sobrou no barco?
- Boss, só temos o Marcos Valério, sua digníssima "do lar", o Roberto Jefferson, a jornalista e eu.
- Vamos seguir nadando como se nada tivesse acontecido. - acrescentou Lula.
E assim fizeram. Lula nadava mais do que nunca preocupado com o Polvinho que, se viesse a acordar, o tiraria da travessia. Aquela algazarra toda com sua comitiva e o Polvinho continuava imóvel, assistindo a tudo sem reação. Naquela situação, era muito difícil acreditar que eles conseguiriam concluir a travessia. Lula se esforçava, mas não saía do lugar. As fortes correntezas e seu despreparo o estavam levando para trás.

Na próxima parada, o Lula perdeu o bom senso de vez e resolveu subir no barco para consultar suas bases partidárias. Imediatamente após entrar no barco, o rígido Observador dirigiu-se a ele para comunicar-lhe que estava desclassificado. Foi então que Lula comentou com a jornalista do jornal francês, como se num tom de arrependimento:
- O PT, Partido das Travessias, fez muitas coisas que os outros também fazem. É prática comum neste país.
Mas Mr. Crodges, como Observador, continuava em sua irredutível posição:
- O que o senhor fez está errado. Será desclassificado!
Mas Lula, mesmo sabendo das irregularidades que ameaçavam a estabilidade de sua travessia, fez como se nada ocorrera e voltou-se a seu fiel escudeiro:
- Companheiro Palocci, temos que terminar essa travessia - comentou. Como está o motor do barco?
- Ainda não foi atingido, boss. Mas se continuarmos com todas essas turbulências, vai ser difícil não danificá-lo.
Ao que Lula respondeu:
- Cuide bem dele. Foi a única coisa certa que fiz: manter o mesmo motor das duas travessias anteriores.
- OK, boss! Volte a nadar! Eu tomo conta aqui no convés.
E, ao final, Lula voltou para a água e continuou a nadar como podia, sem o mesmo vigor de antes, já muito abatido com todas as intempéries de uma travessia que aparentava ser maior que ele.
Ainda faltava um terço da distância a nadar quando, na próxima parada, voltou-se para o barco. A cena era simplesmente trágica: Roberto Jefferson cantava "Con te partiró", Marcos Valério e Renilda se atracavam, brigando por suas malas, Palocci subiu no mastro para fugir da água que invadia já quase todo o barco e o piloto chamava assustado ao rádio:
- MAYDAY, MAYDAY.

Ao final da tragédia, o barco naufragou, o piloto, o observador e a jornalista - autênticos representantes da classe média - perderam tudo o que tinham consigo.
Lula e os componentes da comitiva - todos eles - foram salvos por suas malas, que flutuavam ao sabor das ondas. Assim foram resgatados e levados emergencialmente até a costa francesa. Lá chegando, rumaram a Paris, hospedaram-se no hotel mais luxuoso da cidade, compraram um bom Champagne e comemoraram os resultados da travessia - irregular, suspeita, mas o Polvinho nada havia percebido.

Em seu melhor francês de Garanhuns, Lula discursou:
- Vive l'argentdextrine!
E dançaram, beberam e comeram do bom e do melhor por dias a fio. Ao final da festa, os amigos mais próximos se achegaram ao Lula e perguntaram:
- Monsieur Lulá, como é que você conseguiu esconder tudo aquilo do Polvinho que repousava no leito do oceano? Afinal, o levante inglês ou a intolerância francesa eram tão freqüentes no Canal da Mancha...
- Mes amies Paloccí, Genoinô et Valerie. Aquele Polvinho era BRASILEIRO!

E assim viveram felizes e impunes até que suas três próximas gerações pudessem gastar tout l' argentdextrine ali presente.

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© - Percival Milani