MINHA TRAVESSIA DO CANAL

por Leonardo Natal

Bom pessoal, acho que minha conquista teve um sabor muito mais doce, em virtude das adversidades que passei para concluir com êxito a travessia do canal da mancha em agosto 2017.

No meu caso, sempre tive desejo de atravessar o canal, mas nunca tinha colocado em prática este projeto. Acho que faltava uma motivação especial. Então, em 2015 tive um grave acidente de moto, muitas cirurgias, risco iminente de perder a perna, catorze meses de recuperação. Este foi o grande motivo para me impulsionar a desbravar a temida travessia do canal da mancha.

Além disso, desde o início me preocupei em fazer com que meu desafio tivesse, além de uma motivação pessoal, relevância social. Entendo como egoísmo obter este sucesso apenas para satisfação pessoal. Sendo assim, fiz uma parceria com o "médicos sem fronteiras", direcionando o valor arrecadado com kits (camisa e garrafa) para esta fundação séria que atua em causas humanitárias e conflitos urbanos. Isto sim me deu motivação para me preparar para o desafio. Não sou atleta profissional, sempre tive que trabalhar muito e, a variabilidade tempo era o maior dificultador, pois não havia tempo suficiente para treinar.

No meu caso me preparei com catorze meses, isto mesmo, apenas isso - rs Era o que eu tinha e o que eu podia. Entao fiz a reserva com a CSA, com os pilotos experientes, irmãos Brickell para a janela de 16 a 20 de agosto de 2017. Nunca nadei todos os dias, então fiz todo um planejamento gradativo para a preparação, doze meses antes. Minha primeira prova longa aconteceu no ano anterior (14 bis). A partir dali, começou meu planejamento de doze meses.

Assim como todos, li muita coisa sobre tudo e tive a oportunidade em treinar com meu grande amigo e recordista do canal da mancha, Adherbal. As suas dicas foram super importantes. Basicamente comecei a treinar mesmo faltando nove meses. Não nadava todos os dias, tampouco dobrava. Houve toda uma periodização feita pelo meu amigo Samir Barel de 36 semanas, de modo que, o volume aumentava gradativamente, chegando a 70km nadados por semana nas ultimas semanas. Eu preferia descansar a noite do que dobrar. Isto vai de cada nadador, no meu caso funcionou bem.

A principio tudo estava bem, até que, cinco semanas antes de eu embarcar para o desafio sofri outro acidente de moto, necessitando passar por mais uma cirurgia, desta vez no tornozelo, com a colocação de duas placas e onze parafusos. Isto foi um baque para mim, depois de toda a preparação, abdicação de muita coisa, tudo tinha ido por água abaixo. Pensei em cancelar tudo, mas algo me dizia que era para eu esperar. Então foi o que fiz. Antes do acidente estava com um volume e ritmo excelente, nadando sempre treinos longos com média de 5km por hora. Após a cirurgia permaneci quatro semanas em repouso total, sem poder colocar o pé no chão. Quando retornei ao médico em 04 semana, fui liberado para apoio de carga pessoal e fui 'PROIBIDO' de tentar essa loucura.

Um dos grandes responsáveis nesta reta final foi meu amigo nadador olímpico, Luis Lima. O cara tem um carisma e soube me guiar nessa reta final. Ele dizia sempre pra mim "A vontade tem que ser maior que a habilidade" Em duas semanas tive que tentar recuperar meu ritmo para conseguir continuar com o plano. Assim foram os treinos após esta cirurgia. Eu ia de muletas ate beira da agua e somente usei os braços nesta preparação final. Não tinha força alguma nas pernas, além de ter sido orientado para não bater os pés.

E assim chegou o dia da viagem. Meu tornozelo estava um pilão! Inchado, vermelho, e com muitas dores. Estava tao obstinado para concluir este desafio que superei estas dificuldades. No dia que cheguei a Londres um nadador alemão tinha acabado de morrer ao tentar atravessar o canal, deixando um frio na barriga.

Ao contrario de todos, fiz apenas três treinos em folkstone, com duração máxima de sessenta minutos. A pressão em concluir o desafio, fazer um bom tempo, já não existia sobre mim. Estava totalmente relaxado pois sabia que já era uma vitória eu tentar, que se não completasse já seria maravilhoso, pois estava recém operado. Eu sabia que somente daria para usar os braços, já que a perna era o problema. Estava tao relaxado que turistei Londres, visitei cidades, bebi mta cerveja!!rss Fui a jogos do Arsenal dois dias antes, andei muitoooooo! Rs.

Para vocês terem uma ideia, por conta das cirurgias, fui pra minha tentativa sem nunca ter nadado mais do que seis horas, então tinha um plano em mente para conseguir resistir a tanto tempo. No dia da travessia estava tudo certo, eu iria nadar na madrugada, como todos os demais fizeram antes, entretanto os pilotos estavam no bar chapados no dia anterior e resolveram alterar o horário do meu nado! Disseram me assim: " Você ira nadar 15h ok?" Fiquei em pânico pois sabia que iria nadar muitas horas na madrugada, sobretudo pelo frio ne! Pois assim eu chegaria provavelmente de madrugada em solo francês, ao invés de chegar de dia, com pessoas lhe parabenizando e tal!. Isso foi frustrante, pois não havia feito treinos noturno com mais de duas horas.

No dia da travessia não dormi né!, não comi!, rs O dia estava muito bonito e quando comecei a nadar senti aquela água gelada e comecei a estabelecer minha estratégia. Como eu nunca havia nadado mais do que sete horas, resolvi nadar a meio metro do barco. Embora perigoso, queria eliminar ao máximo o efeito das correntes. Em nenhum momento olhei para frente. Condicionei minha mente para aguentar a cada duas horas. Sabia que com seis horas mais ou menos tinha que estar na metade, mesmo não usando os pés. E assim foi, construindo estes objetivos a curto prazo, de duas em duas horas, fui atravessando, sempre colado no barco. Cheguei à metade do canal com 04:30h, extremamente exausto! A metade seguinte sem duvida foi a mais dificl, pelas correntes, ondas, aguas vivas fluorescentes e, é claro, o principal fator: a ÁGUA GELADA! Este sim é o maior obstáculo, manter-se concentrado para não entrar em hipotermia. A sensação era cada vez pior quando não havia mais luz do sol. A única luz era do farol francês. Entao minha referência era o tempo. EU olhava sim para o relógio a cada parada de quinze segundos. Pensei em diversas paradas em desistir por dores no tornozelo operado, mas estava muito concentrado e sabia que iria terminar.

Por fim, após ver o bote da embarcação cair na água, senti um êxtase de alegria, pois sabia que, a partir daí seriam mais alguns minutos para chegar. De repente o piloto apontou a lanterna para a praia e disse: "250 metros, vá logo que o frio está apertando (16 graus)!!" Nadei o mais rápido possível e so percebi que havia chegado quando a ponta de meus dedos encostou na areia! Me senti como Rock Balboa! Chorei igual a uma criança , sobretudo quando retornei para o barco, lembrando de tudo que eu havia passado, todas as dificuldades superadas!

Aos que pretendem fazer, deixo um apelo! Além da satisfação pessoal, este tipo de projeto precisa ter um viés social! Fiquei muitooooo feliz ao doar um checão para o Médicos sem Fronteiras. Me senti útil, vivo, e com a sensação de dever cumprido como cidadão.

Forte Abraço a Todos.

Leonardo Natal

© - Percival Milani