MENTIROSO

Quem é o maior mentiroso do mundo?
A resposta a essa difícil pergunta exige uma tese de livre docência e alguns anos de pesquisa. Como não temos todo esse tempo, vamos comentar apenas as categorias mais freqüentemente citadas nos círculos sociais. Como o tema também é super polêmico e criativo, tentaremos restringir a apresentação aos candidatos mais evidentes. Se alguma categoria ficar de fora, antecipadamente peço desculpas pela limitada abrangência do texto.

A primeira categoria é a dos pescadores. Pescador mente pra chuchu. Freud explica: é uma questão de auto-afirmação. Você sai para fazer uma baita pescaria, faz propaganda aos quatro ventos para os amigos, paga "os tubos" naquele barco que sobe o pantanal e te deixa isolado lá por uma semana e não pega nada! Como é que fica? Não há auto-estima que resista! Então o ser humano, num ato de autodefesa, passa a ser inventivo em suas histórias sobre a pescaria. É inevitável ouvir casos assim:
- Eu peguei um peixe tão grande que só a foto dele pesava cinco quilos!
Ou ainda:
- Meu anzol puxou uma latinha de refrigerante do fundo do rio. Quando abri a latinha tinha um peixe de 12 quilos ali dentro. É que ele entrou na latinha ainda pequeno, foi crescendo e não conseguiu mais sair de lá...
Primeira conclusão:
A mentira do pescador é perdoável, pois se trata de um ato de autodefesa.

Uma segunda categoria que "pega pesado" é a dos políticos. Aqui, Freud não explica. Quem explica são os consultores de investimento ou os administradores de contas em paraísos fiscais, pois a finalidade é sempre a mesma: desviar nosso suado dinheirinho.
A mentira dos políticos é tanto mais convincente quanto maior a convicção de quem a emite. Por outro lado, até mesmo uma verdade, quando falada com hesitação, soa como uma mentira. (Quem conhece a propaganda do Colírio Moura Brasil?)
As mentiras dos políticos têm outra peculiaridade, pelo menos no Brasil. Elas são extremamente voláteis, isto é, ficam pouco tempo na memória do povo. Ainda bem que existe a imprensa que nos lembra das promessas feitas e não cumpridas, do que dava pra fazer e não foi feito, etc.
Não vou citar aqui muitos exemplos de mentiras dos políticos pois esta é apenas uma crônica e não uma enciclopédia. Mas gostaria de registrar alguns pontos de desentendimento dos políticos, onde eles são mal interpretados pela opinião pública e, conseqüentemente erroneamente crucificados. Pobrezinhos.
Aconteceu numa visita do então Presidente Figueiredo à minha escola de segundo grau, que pleiteava a construção de um ginásio de esportes. Em seu discurso, suas palavras foram:
- Assim como prometi fazer deste país uma democracia, vocês terão o seu ginásio de esportes!
O ginásio nunca saiu do papel. Mas a democracia também não!
Logo, como nos ensina o Padre Vieira em seus sermões, o silogismo não era falso. Não foi uma mentira, foi um ato de extrema coerência!
Outro caso famoso foi do Maluf em seu comício:
- Bovo brasileiro! Saibam vocês que, neste bolso, nunca entrou dinheiro ilícito.
Acontece aqui que ele estava de terno novo. O "bovo" é que não notou.
Segunda conclusão:
A mentira do político é danosa e deve ser combatida ferrenhamente.

A última categoria a que vou me referir, por mais incompleto que este artigo possa parecer é a dos barqueiros ou caiaqueiros de travessia. Não tem raça mais mentirosa, esse pessoal é realmente inventivo. Neste caso, Freud, se nadasse, explicaria. Como não há registros de suas habilidades aquáticas, passo a desenvolver teoria alternativa própria.
Começa já no início da travessia, dizendo ao nadador:
- Você está indo bem! Continue assim.
Esta é a mentira de incentivo.
Depois, no meio da travessia, quando você está tremendo de frio numa água a 18º e ele diz pra você:
- Poxa, ainda bem que a água está agradável. Deve estar uns 24º !
Outra mentira de incentivo. Após cinco ou seis horas, o nadador está tão cansado que até acredita!
Aí vira o nadador perdido no meio de uma travessia de percurso no mar - sinalizada com bóias - e pergunta pro barqueiro:
- Pra onde eu vou? Cadê a bóia?
- Tá vendo aquela arvorezinha no alto da montanha? É naquela direção.
- Tá OK. - o nadador responde e segue nadando na mesma direção de antes.
É difícil dizer se o barqueiro viu a bóia mesmo ou se a maior mentira é do nadador, que normalmente não enxerga nem arvorezinha nem montanha.
Tem também aquela onde, após seis horas de prova com o atleta comendo somente carb-up de banana, o barqueiro vira pra você e diz:
- Este aqui é de maracujá!
E te entrega outro carb-up de banana.
Mas a mentira mais cruel de todas e que todos os nadadores conhecem, mas insistem em perguntar após horas e mais horas de esgotamento físico, é:
- Falta muito?
A resposta padrão do barqueiro é:
- Não, não. Já tá chegando...
E suas variantes adicionais:
- É logo depois daquela curvinha ali na frente.
- Vai firme que é logo ali.
- Daqui até o "funir" é um tirinho! (Barqueiros mineiros, sô)
Terceira conclusão:
A mentira dos barqueiros é para o incentivo do nadador. Nossos aplausos e homenagens a eles!

Imaginei que houvesse mentirosos assim em outros esportes. Perguntei a um colega que pratica atletismo. Sem titubear, ele respondeu:
- Ah, quem corre não passa por isso, não! Você sabe: a mentira tem perna curta...

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© - Percival Milani