ESPORTE É DOENÇA

Não tem nada de errado neste título, não? Eu sempre ouvi falar algo do tipo "Esporte é saúde!" E então, como é que fica? Quem é que tem razão?
Eu, como a imensa maioria das pessoas, sou da versão "saúde" sim. Acontece que há exceções a esta magnânima lei do esporte - há doentes esportivos, alguns em estágio terminal - e este texto é um lembrete a todas as pessoas que, apesar de praticarem o esporte, ainda não aprenderam para quê ele se presta.
A título de conhecimento e para diversão dos leitores - afinal, é para isso que servem os textos, instruir e divertir - conto aqui dois "causos": o primeiro se passa numa faculdade e é mencionado aqui para tornar mais didática a apresentação do conceito de ignorância social; o segundo, em uma travessia. São os paralelos entre a vida real e o esporte.

História 1:

Aconteceu mais especificamente em meu curso de Engenharia na Escola Politécnica da USP. Estávamos no segundo ano de Elétrica. Num belo dia de prova, um aluno "oriental" chama o professor e, durante a prova, dedura seu colega de classe que estava tentando colar. Imaginem a cena! Tudo por quê a Poli tem um esquema classificatório ano após ano, onde os alunos com as melhores notas podem fazer as melhores opções de carreira no curso. Nos cinco anos, vivi cinco vestibulares. A competição era ferrenha e os menos preparados ficaram pelo caminho. Não precisa dizer que o dedo-duro acima não se deu bem. Não só não conseguiu a opção do curso de Eletrônica como também ficou marcado para o resto do curso - ou da vida - como o protagonista de um evento muito desagradável.
E o mais desmoralizante de tudo, todos sabiam que o "oriental" também fazia suas colinhas de vez em quando...
Em resumo: ele foi muito ignorante. Um ignorante social, pois não soube medir as conseqüências de seu ato perante o grupo onde convivia.
(Por favor, não entendam isso como uma apologia ao crime, onde a cola deva ser incentivada. O modo e a situação como foi feito é que não tem nada a ver com os bons princípios da moral).

História 2:

É dia de travessia. A última do ano. Eu e Mr. Carpet estamos disputando ponto a ponto, prova a prova, o terceiro e quarto lugares em nossa categoria, a saber, Máster D do Campeonato Paulista de 2004. Estamos matematicamente empatados. Quem chegar na frente, leva.
A prova é de circuito. São duas voltas nas bóias demarcatórias com chegada no funil. Em menos de uma hora tudo se define. É dada a largada, o ritmo é forte, a prova é curta, apenas quatro quilômetros. Após 57min12seg de uma prova emocionante, com direito a ultrapassagem antes da grande reta, chego ao funil com trinta e dois segundos de vantagem sobre Mr. Carpet.
Após minha vitória, a ignorância social toma conta de Mr. Carpet, que diz:
- Percival, eu vou pedir a sua desclassificação por que você não passou à direita da bóia amarela na segunda volta.
Referia-se a uma bóia próxima à margem que evita que os nadadores se aproximem demasiadamente da margem - sua função é mais a de uma bóia de segurança do que de trajeto - e que, sistematicamente foi deixada de lado pela grande maioria dos nadadores, inclusive o próprio Mr. Carpet, em sua primeira volta. Para quem não entendeu direito eu repito: o próprio Mr. Carpet que me acusava de desviar da bóia havia feito a mesma coisa na volta anterior.
- A mesma que você e os outros trezentos atletas furaram na primeira volta? Vá em frente! retruquei.
Não adiantava falar. Um dos sintomas dessa doença é que seus portadores perdem a audição, ou o bom senso ou ambos. Mr. Carpet escreveu um ofício à organização, solicitando minha desclassificação. O resultado? Como era de se esperar, governados por extremo bom senso, os conselheiros rechaçaram sumariamente sua requisição, pois a mesma não fazia o menor sentido. A conseqüência, já esperada: eu mantive o terceiro lugar por um pontinho: 1014 a 1013 pontos e o pior: ele queimou-se socialmente no grupo. Afinal, quem conhece sua história, já sabe dos subterfúgios que usa (buscar o tapetão) para obter o que não consegue por meios mais dignos.
Que pena! Ao invés de celebrar a festa esportiva, foi acometido por uma terrível crise de ignorância social.

Mais importante que vencer é demonstrar ATITUDE condizente com o esporte e com o grupo que o pratica. Ou como disse o Gustavo Borges em seu livro:
- O importante não é vencer. É nadar para vencer.
E natação se faz na água, não no tapetão.

PS: Quem quiser conhecer o Campeonato Paulista a que me refiro, entre em www.maratonaaquatica.com.br. Já é o segundo maior das Américas.

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© - Percival Milani