LIÇÕES DE PEQUIM

Em tempos de Olimpíadas, não se pode deixar passar um momento desta magnitude sem retirar algumas lições para nosso próprio crescimento. São lições que provêm não somente das vitórias, mas também das derrotas. O esporte tem esta função dignificante de incutir em nossas mentes e em nossa alma valores de grandiosidade através do exemplo daqueles que lá estão competindo.
Em primeiro lugar, é importante salientar os significados de vitória e de derrota. A imagem mais imediata que nos ocorre é que vitorioso é quem ganhou um jogo ou uma prova. Contudo, se levarmos a definição um pouco mais adiante e com mais profundidade e sensibilidade, podemos perceber que - perdoe-me Shakespeare - há muito mais vencedores entre o céu e a terra do que a nossa vã imaginação possa conceber.

O antigo técnico de natação do Gustavo Borges, ainda do tempo em que ele treinava nos Estados Unidos, lhe disse um dia:
- Gustavo, mais importante do que vencer é nadar para vencer.
O Gustavo, como não era bobo coisa nenhuma - e, por isso, chegou aonde chegou - ouviu e ENTENDEU o que aquilo queria dizer. É vencedor quem tem uma atitude vencedora. É duplamente vencedor quem, além da atitude vencedora, foi capaz de chegar entre os primeiros.

Mas existe uma aura cinzenta em torno do segundo lugar, na opinião de alguns comentaristas e outros formadores de opinião. Veja a situação da seleção feminina de futebol, que perdeu a final para os Estados Unidos.
Aquilo pareceu uma hecatombe. O fim dos tempos. O cataclisma derradeiro.
Aí vem o Pelé e nos lembra, em sua simplicidade, que as moças eram prata e isso representava uma grande vitória! De fato, não se pode jogar no lixo o fato de que, dos quase 200 países do mundo, 24 se classificaram para jogar na Olimpíada e, desses, 22 ficaram para trás e apenas um na frente. Isso é pouco? É uma derrota? É vergonhoso? Perdoem-me os comentaristas esportivos, que estão atrás apenas de manchetes bombásticas, mas não é.

Vejam o exemplo da equipe americana de vôlei feminino, que foi segundo lugar para o Brasil. Apesar da derrota na partida final, elas comemoraram bastante sua premiação no pódium - elas souberam valorizar o momento e honrar a posição obtida.
Como não poderia deixar de mencionar, a natação foi outro bom exemplo para nós. Quando a imprensa elevava demais as expectativas em torno de Thiago Pereira - que fez uma boa eliminatória nos 400 medley, mas uma não tão boa final - veio o César Cielo, quase desconhecido de nossa excessivamente emocional e pouco pragmática imprensa e faturou duas medalhas para o seu currículo. Aí entram os invejosos - ou ignorantes - ou ambos - e vêm dizer que o César conseguiu uma medalha em apenas 21 segundos, como se isso representasse um esforço menor. Só conseguem enxergar a prova e se esquecem dos inúmeros anos de treinamento intenso para mostrar ser o atleta mais rápido das olimpíadas.

Mas os brasileiros são mesmo simplistas, pouco pragmáticos e excessivamente emotivos. Talvez isto tudo seja fruto de nossas raízes latinas - não vou entrar nesta área de antropologia para encontrar desculpas para nosso comportamento irracional. Aposto que muitos de nossos torcedores trocariam uma medalha só para derrotar os argentinos naquela partida de futebol, mesmo que fosse pelo placar de meio a zero. Apegam-se a clichês e a tradições inúteis, são inflamados pela mídia - e obviamente, por nossos dirigentes públicos que, conhecedores de nossa realidade, não deixam faltar pão e circo ao seu querido povinho. O mesmo povo que, eleição após eleição, os mantém no pódium da impunidade, da opulência e da irresponsabilidade administrativa.

Há pelo menos duas olimpíadas muito diferentes entre si. As Olimpíadas do esporte estão na primeira categoria. A$ Olimpíada$, comandadas pelo interesse econômico são a segunda.
Quando o Michael Phelps recebe um milhão de dólares de seu principal patrocinador, a Speedo, por ganhar oito medalhas de ouro numa única Olimpíada, ainda estamos falando das olimpíadas do esporte. Isto por que o Phelps é peixe pequeno - literalmente, um peixe - quando se compara o seu excelente patrocínio individual com a promoção mundial alcançada por seus resultados. Quanto ganhou o governo chinês, em seu goodwill, por ser reconhecido como a nação que teve Michael Phelps como símbolo do melhor atleta de todos os tempos? E as empresas de comunicação americanas - tomemos a NBC, por exemplo que, usando de seu poderio financeiro, conseguiu inverter os horários em que se disputavam as finais, para permitir que fossem veiculadas nos Estados Unidos durante o dia? E os demais patrocinadores espalhados por este mundo afora, que aumentaram incrivelmente sua audiência? Este é o lado da$ Olimpíada$ que faz a roda girar. Um lado não existe sem o outro.
Tenho certeza que, se as meninas do Brasil tivessem ganhado o ouro olímpico, elas estariam em melhores condições de negociar eventuais contratos e patrocínios. Dada a origem humilde de tantas delas, sabemos que isto é mais uma questão de subsistência do que de desempenho esportivo. Tendo que jogar no almoço para pagar o jantar certamente tira a concentração e o ideal esportivo de qualquer ser humano. Não é fácil.

No entanto, apesar das manipulações econômicas de grande monta que fogem ao nosso controle e compreensão que se escondem por trás de um evento deste porte, não podemos deixar de aproveitar as lições dos grandes vencedores - em especial, os que não subiram ao pódium.
Vejamos Natalie du Toit, a sul-africana com a perna esquerda amputada e que conseguiu classificação para nadar a Maratona Aquática de 10 km. Chegou na 16ª posição, cerca de um minuto atrás da russa Iichenko, numa prova de duas horas de esforço sobre-humano. Essa mulher vai poder contar, com orgulho, sua história para os filhos e netos pelo resto de sua vida!

Sobre os tantos nadadores brasileiros que abaixaram significativamente seus tempos - por vezes em vários segundos - mesmo que não tenham chegado à final. Eles nadaram para vencer. Ou os lutadores que lutaram para vencer. Os corredores que correram para vencer. Os saltadores que saltaram para vencer. Eles não são vencedores? Para mim são, se fizeram o melhor que podiam fazer.
É óbvio que subir ao pódium, ouvir o hino brasileiro e ver nossa bandeira ser erguida à posição mais alta são emoções indescritíveis. Quando o Brasil ganhou seu primeiro ouro, na pessoa do César Cielo, não foi só ele que chorou de emoção - ele carregou consigo um bando de comentaristas e torcedores, inclusive eu. Aquilo é motivo de inspiração para qualquer um de nós.

Há exatos cinco anos, quando de minha travessia do Canal da Mancha, eu me senti um vencedor. Não havia ganho o melhor tempo mundial do ano (fui o oitavo, entre as duas federações), não havia quebrado recordes (detenho apenas o segundo tempo masculino brasileiro) e nem tive a satisfação de ouvir o hino nacional brasileiro ao chegar em terras francesas. Mas uma emoção eu levo comigo, que só veio a reforçar o sentimento de forte brasilidade que vivi na época e que ninguém vai conseguir tirar de mim. Ao chegar à costa francesa, deparei-me com grandes e escorregadias pedras que precisavam ser ultrapassadas para chegar à terra firme, para que se declarasse o final de minha Travessia. Sem que o percebesse, a bandeira brasileira, estampada em minha touca, foi lentamente emergindo do mar em direção à minha consagração. Quando consegui me equilibrar já na parte seca aos pés do penhasco e a sirene do barco soou, indicando o final da Travessia, a bandeira estava lá, em sua posição mais alta. Arrisco até dizer que ela tremulava, pois eu estava à beira de uma hipotermia após mais de dez horas em água gelada.
Aquele foi o meu pódium - minha maior lição do esporte.

Aprendamos, portanto, as lições de vida que nossos atletas olímpicos têm a nos ensinar. Os que competiram para vencer, tenham vencido ou não, merecem nosso louvor.
Seja você também um campeão em vida - mesmo que anônimo - em seus esforços para vencer. É muito simples: basta viver para vencer! Sem esmorecer. Agora e sempre.

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© - Percival Milani