REGULARIDADE

O tempo é inexorável. Não importa o que você faça, cada segundo que passa não volta mais. Todos temos um estoque limitado de segundos para usar durante a vida - o bom é que a nenhum de nós foi dado o direito de saber quantos ainda estão disponíveis. Desta maneira, cabe-nos fazer o melhor uso dos mesmos para não nos arrependermos mais tarde - ou talvez, tarde demais.

Além de inexorável, ele é cíclico. Tudo fruto da convenção humana, é claro. A uma rotação da Terra, convencionou-se chamar de dia. A uma órbita completa em torno do sol, deu-se o nome "ano" e assim por diante. E nós, movidos pelas invenções e convenções humanas, nos adaptamos aos ciclos e nos motivamos a cada novo reinício. E à noção de ciclo associamos o conceito de REGULARIDADE: não existe nada mais constante neste mundo do que a passagem do tempo. (Aviso aos preciosistas de plantão: não estou abrindo a discussão para velocidades próximas à da luz, onde o tempo perde a linearidade à qual nos referimos neste texto).
Por esta razão, inúmeros pensadores modernos consideram o tempo o bem mais precioso.

Em qualquer momento cíclico de sua vida, seja você um jovem ou um ancião, olha-se para trás e busca-se mostrar o que foi possível construir ao longo da mesma. É o momento de pintar o quadro da vida até aquele momento. Alguns conseguem ver grandiosas conquistas - outros, nem tanto - e se perguntam como foi possível construir aquela realidade.
As maiores conquistas são seguramente fruto da regularidade ao longo dos anos. Seja a construção de uma carreira de sucesso - pautada pelo esforço contínuo de um trabalhador ao longo dos anos; seja a educação dos filhos - obtida através da árdua tarefa diária, sem domingos e feriados, de uma mãe dedicada; ou mesmo uma polpuda conta corrente ilegal no exterior - conseguida através de desvios constantes de dinheiro público por políticos corruptos em seus vários mandatos, ignorando a pobreza daqueles que o elegeram.

Seja para o bem ou para o mal, a regularidade é capaz de maravilhas e seu efeito acumulativo é extraordinário. Os juros compostos que o digam. O bilionário americano Warren Buffet, recentemente apontado como o homem mais rico do mundo, escreve em seu livro que preferia andar de fusquinha velho a ter que gastar vinte mil dólares num carro novo. Isto por que, se aplicada esta quantia, ao longo de vinte e cinco anos a juros de x% ao ano lhe renderia, ao final, um valor próximo a um milhão de dólares. Daria pra providenciar um funeral e tanto, não?

A regularidade é o grande desafio de nossas vidas. É o ponto central para o sucesso de nossos projetos. É o motor que impulsiona as conquistas.
Imagine que você esteja aprendendo uma língua estrangeira, já domine sua estrutura, mas não se sente muito à vontade com o vocabulário. É sabido que, com cerca de duas mil palavras é possível estabelecer uma conversa sobre variados temas em um nível não muito sofisticado. Imagine que você decida aumentar seu vocabulário para cinco mil e se proponha a fazê-lo em dois anos. Isso demanda aprender aproximadamente quatro palavras novas por dia durante os dois anos. Se você pensar bem, são apenas quatro - não é muito. O problema é a regularidade: tem que ser todos os dias. Se desejar estudar apenas nos dias úteis, a meta passa para seis palavras por dia. Igualmente não se apresenta como uma tarefa impossível. O difícil é fazê-lo com regularidade. Manter a tocha acesa. Sempre.

Certo dia ouvi o Lair Ribeiro dizer - e devo admitir que concordo com ele neste ponto - que é fácil tornar-se um especialista sobre um determinado tema. Se você estudar um assunto quinze minutos por dia, você saberá mais sobre o tema do que 99,9% da população em menos de dois anos. Viu como é simples? Novamente o cerne da questão não são os quinze minutos, são os dois anos, todo dia.

Se você se dispõe a uma grande travessia - o Canal da Mancha é um exemplo disso - é necessária dedicação espartana e comprometimento com o seu objetivo. O que exige muita disciplina, foco no que é importante e, talvez o mais difícil, fazer escolhas. Fazer escolhas significa que não é possível ganhar sempre. A opção pela Travessia automaticamente fechou as portas para algumas diversões com a família, para alguns almoços com os amigos, para a leitura de certos livros, para o conforto de uma cama aconchegante ou até mesmo para banhos quentes. Tudo em prol do quê? Da regularidade, é claro.
- Não deu para ir àquela festa? Não, eu tinha que dormir mais cedo.
- Não foi possível passar aquele domingo com a família? Não, eu tive que ir nadar na represa.
- Não foi possível aproveitar o happy-hour? Não, eu tinha que comer algo mais consistente.

Na fase de preparação para a Travessia, três verbos ganham importância na vida do atleta: nadar, comer e dormir. Em termos práticos, isto significa: nadar com regularidade - freqüência e em volumes crescentes, o que exige a reposição alimentar com regularidade - mais freqüente e balanceada e o repouso com regularidade - dormir o suficiente para sua recomposição. Não é difícil nadar, nem comer e quanto menos, dormir. O difícil é fazer tudo isso regularmente por um longo intervalo de tempo.
Mas não são apenas portas que se fecham - muitas outras se abrem à sua frente. Toda essa dedicação o leva a resultados. Mais usualmente no longo prazo e focados naquilo que será importante para sua meta. No meu caso, levaram à auto-confiança que necessitava para enfrentar o desafio, à capacidade aeróbica evoluída, à ambientação em águas de temperaturas baixas, à preparação muscular, ao desenvolvimento de valores, ao conhecimento de pessoas muito competentes no que fazem, só para mencionar alguns.

Mas não tem jeito. Para atingir tudo isso, tem que ter regularidade. Só assim é possível explicar por que entrar no Canal de Bertioga às duas da manhã em pleno inverno, com água a 18 graus para nadar 24 quilômetros. Ou ainda por que nadar doze horas seguidas em piscina. Por que levantar às 4:30 da manhã todos os dias para ir treinar - faça sol ou faça chuva. Por que fazer nove refeições por dia. Por que esforçar-se para dormir oito horas por dia. Por que dirigir oitocentos quilômetros para nadar uma prova de dez num único dia.
Quantas pessoas que encontro e que se gabam de seu maior e mais valioso troféu: o da regularidade. Um deles, com seus 65 anos, orgulha-se de caminhar seis quilômetros por dia - este caminha para uma vida saudável. Outro, um jovem triatleta, nada três dias, corre dois e pedala outros dois por semana, religiosamente - ele tem uma preparação invejável. Outro colega, porém, bebe chope todas as noites - sem contar os whiskeys e vodcas para acompanhar - sua regularidade o está levando paro o buraco!

Pense bem.
Quantos regimes você começou e não levou adiante? Faltou regularidade.
Há quantos anos você estuda inglês pulando de curso em curso e dizendo que desta vez vai? Faltou regularidade.
Quantas provas ou jogos (corrida, natação, futebol, etc.) você participou sem o devido preparo e terminou quase morto? Faltou regularidade.

A regularidade exige que você saia de sua zona de conforto. O ser humano raramente consegue manter o mesmo nível de determinação por muito tempo. Então, ele faz concessões. Mas quem não cede e está convicto de sua vocação vira um caso de sucesso. Quer mais um exemplo bem-sucedido? Michael Phelps, o americano que ficou famoso por tentar ganhar oito medalhas de ouro na última olimpíada. Ele treina todos os dias do ano. Simplesmente todos.

Tive um desempenho razoável em minha Travessia do Canal da Mancha, graças à regularidade, sob aspectos positivos e outros nem tanto:
1. do começo ao fim da prova, mantive o ritmo de 60 braçadas por minuto
2. alimentei-me a cada meia hora
3. reclamei do frio durante toda a travessia

Se você conseguiu chegar até este ponto da leitura, parabéns por sua persistência - por que não dizer, por sua regularidade? Verifique agora os seus objetivos em vida e mantenha a constância. Você terá um ingrediente importante para o sucesso.

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© - Percival Milani