PAU-DE-SEBO

Quem não conhece o pau-de-sebo, que levante a mão!
Componente tradicional de nossa cultura regional, em especial da nordestina, em suas mais variadas formas e tamanhos. É classificada como uma forma popular de diversão e está presente em festas de cunho cívico, religioso ou profano. Tecnicamente falando, consiste de um tronco de madeira com mais de 5 metros de comprimento - alguns chegam ter quase 10 - que é cuidadosamente preparado, sendo-lhe retirado todos os nódulos e imperfeições, alguns são lixados e, por fim, são recobertos com sebo de boi, para que fiquem escorregadios. Em seu topo colocam-se prendas ou mesmo um pequeno sino que deve ser tocado por quem lá chegar.

Não é permitido utilizar instrumentos especiais para a escalada. O sujeito tem que ir mesmo só com a cara e a coragem e o segredo é subir mais do que se desce. A gravidade está contra você. Os atritos, especialmente baixos no início, também. Isto sem contar aquela meleca toda na qual você se lambuza todo. Não é à toa que é motivação de festa.

Certo dia, conversando com um amigo engenheiro - considero-me um felizardo de conhecer muitos deles - perguntei-lhe sobre seu conhecimento de inglês. Se continuava estudando, se andava praticando, aperfeiçoando, etc. Sua resposta foi direta:
- Aprender uma língua estrangeira é que nem subir num pau-de-sebo. Se você não está subindo, você está descendo.

A definição não poderia ser mais precisa. Não há meio termo. Você pode estar fazendo um enorme esforço para subir e seu progresso pode ser muito tímido. E, mesmo para ficar parado, você ainda tem que estar tentando subir. Se parar, com certeza você estará descendo.
Em resumo, ou você busca avançar - sem a garantia de sucesso - ou você seguramente estará retroagindo.

A partir deste dia, a analogia passou a me acompanhar em tudo que fazia. Obviamente, na natação - como não poderia deixar de ser - o exemplo caiu como uma luva. Não adianta você ter atravessado o Canal da Mancha. Se você parou de nadar, vai retroagir até a estaca zero novamente.

Já disse meu técnico e guru Agnaldo:
- Mesmo os atletas de ponta, se deixarem de praticar o esporte por cerca de sessenta dias, poderão ser considerados praticamente sedentários novamente.
Não questiono se o período é maior ou menor, se a lei vale para todas as modalidades esportivas, ou mesmo para todos os esportistas - é sabido que o grau de recuperação varia enormemente - mas uma coisa é certa: se você não está se esforçando para avançar, estará retrocedendo.

Outra coisa também é certa: há vários desafios paus-de-sebo - todos eles muito diferentes entre si. Um deles pode ter sido o desafio do Canal. Outro pode ser a prova de 800 metros livre do Campeonato Paulista, outro ainda, uma travessia de menor porte em água doce, ou uma Travessia dos Fortes, uma 14 Bis e assim por diante. O fato de você tocar o sino num dos inúmeros paus-de-sebo não o habilita a ser o melhor em quaisquer outros. Muita calma nessa hora, pois uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.
Mas as pessoas gostam de fazer relações. Mais que isso. Adoram comparações - em especial se forem feitas em benefício próprio. Já vi atletas desdizendo ou mesmo diminuindo a importância de uma prova em função da não consecução do mesmo nível de sucesso em outra. É mais ou menos assim:
- Não entendo por que homenageiam o fulano que fez o Canal da Mancha se eu ganhei dele nos 800 metros.
Todos têm seus altos e baixos. Em meu caso particular, acredito que tive poucos e significativos "altos". Sem dúvida, a Travessia do Canal foi o maior deles. Mas, de volta à vida normal, com ritmos de treinamento mais comportados, passa-se a viver outros objetivos - em verdade, o pau-de-sebo mudou. Não é mais o do Canal da Mancha. Passa a ser o pau-de-sebo do campeonato paulista ou do regional de piscina. Não importa, os níveis de exigência e motivação são diferentes. E seu desempenho não foge à regra: se você não subir, desce.

Abrindo o leque de análise, vemos casos de nadadores - ou mesmo em outros esportes também - que já foram campeões de grande expressão - olímpicos ou mundiais - e que se tornaram um exemplo de sedentarismo depois de pararem de nadar. Alguns foram até safenados - quem não conhece o caso do Ricardo Prado? São eles as provas contundentes do teorema do pau-de-sebo, que diz: se você não está subindo, estará descendo.

Aprendi, com o tempo, que este teorema está mais presente em nossa vida do que imaginamos. Além do aprendizado de uma língua estrangeira e dos esportes, como citado há pouco, podemos adicionar, a título de enriquecimento sobre o tema, outros exemplos de paus-de-sebo:

- sua capacidade profissional: não importa sua posição na empresa que trabalha, olhe sempre para frente e caminhe. Se o trabalho está te limitando, vá estudar. Ficar parado significa que seus concorrentes estão avançando e, mais cedo ou mais tarde, você fica para trás.
- a utilização da memória ou sua capacidade de raciocínio: as técnicas modernas de neurologia indicam que seu cérebro é subaproveitado. Use-o cada vez mais e, se você tem alguma dificuldade específica, é ela que deve ser exercitada fervorosamente. Pratique a neuróbica - nome dado à técnica de exercitar o cérebro, em analogia com a aeróbica, praticada nas academias. Se não usar, atrofia.
- o casamento: deve ser renovado com freqüência. Não, não me refiro a trocar de marido como se troca de roupa. A rotina é seu grande inimigo. Buscar fatos novos e manter a chama acesa representa o esforço de escalar o pau-de-sebo. Constantemente. Caso contrário, você estará caindo.
- a relação com amigos: esta é criticíssima. Se não alimentar sempre as relações sociais, elas desaparecem. Não basta ser um cara legal. Tem que investir na relação.

Isto sem falar em temas mais complexos, como: capacidade de mudança, coragem, educação dos filhos, condicionamento cardiovascular, entre tantos outros.

O efeito pau-de-sebo pode ser terrível, pois apaga sua história e o torna escravo de seu presente.
Mas, como tudo na vida tem sempre um "mas", também é possível observar alguns casos em que o efeito pau-de-sebo não se aplica plenamente. Em seu lugar, entra o "efeito catraca".

Uma catraca é tudo o que falta para você vencer um pau-de-sebo. Seu efeito consiste em fazer uso de alguns degraus ou saliências estrategicamente distribuídas ao longo do caminho que lhe permitem um apoio firme e a quase impossibilidade de retroagir.
O caso mais conhecido e, por vezes mais revoltante, é o caso da promoção de um funcionário em uma empresa que se acomoda em seu novo status. Ao escalar seus degraus corporativos, sente-se cada vez mais intocável e não necessariamente torna-se mais produtivo. Ao contrário, como conseqüência de sua baixa motivação, os estragos são percebidos num âmbito tanto maior quanto mais alta for sua cômoda posição hierárquica.

Não é à toa que, nas empresas, uma das saídas para tirar de cena um determinado executivo, que é tido como um empecilho nos caminhos corporativos, consiste em dar-lhe uma... promoção!
É como diz meu sábio e filosófico irmão: "É melhor eu parar de fazer besteira senão eu viro gerente."

Entretanto, o efeito catraca impõe uma memória ao processo evolutivo e não é de todo perverso. Há situações em que a história de uma pessoa deve ser levada em conta. Imaginem o Guga. Hoje ele deve ser o tricentésimo e tra-lá-lá do mundo. Mas ele já foi o primeiro e isso tem um grande valor. O tricentésimo que já foi primeiro do mundo tem uma visão diferente - pelo menos assim se espera - de alguém que só foi o tricentésimo. Óbvio que uma polpuda conta-corrente também. Mas, sabemos que o primeiro lugar é apenas uma lembrança. O que vale hoje é sua tricentésima e tra-lá-lá posição. Afinal, ao cair no ranking, como tenista profissional, ele lá ficou.
E dá-lhe pau-de-sebo!

Chego à conclusão que os paus-de-sebo são mais a regra do que a exceção. Por mais injusto que possa parecer, ele é um sistema meritocrático e, como tal, deve ser respeitado e utilizado em favor do crescimento pessoal. Encaremo-lo como um aviso constante para não nos acomodarmos sobre as conquistas do passado.
Até o último momento, em que, no pau-de-sebo da vida, você tocar os pés no chão.
Aí é melhor partir para o próximo.

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© - Percival Milani