COMUNICAÇÃO

"Quem não se comunica se estrumbica". Célebre frase de nosso saudoso Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Muitos desta nova geração não o conheceram e talvez não entendam o significado por trás destas singelas palavras.

Como diz meu colega comunicólogo Mario, de Brasília: comunicar significa tornar comum. Tecnicamente falando, o emissor articula uma mensagem e a transmite através de um meio até outro personagem - chamado receptor - que a recebe e a decodifica. Pronto. A comunicação está estabelecida, a mensagem tornou-se comum.

Os modos de articulação e os meios de transmissão, no entanto, podem ser muito variados. Vejamos alguns exemplos:
1. "A mãe pede ao filho que não se esqueça de levar o lanche pra escola.": mensagem oral no meio ar.
2. "Um trabalhador envia um correio eletrônico ao seu chefe, comunicando que a mercadoria está disponível": mensagem escrita, no meio eletrônico.
3. "Um jovem apaixonado simplesmente olha para sua namorada com ternura": mensagem de sentimentos transmitida através de um singelo olhar.

O problema da comunicação é que ela depende muito do estado de espírito de quem emite e de quem recebe. E é tanto mais complexa quanto mais distantes ou desconectados estiverem seus emissores e receptores. Isto explica o freqüente fato de encontramos tanto mau humor nas corporações movidas a correio eletrônico. É tiro e queda. Basta você esquecer de escrever um "bom dia", ou não pontuar a frase corretamente levando a uma possível má entoação ou interpretação e pronto. A confusão está armada. E vai desfazer o nó!

No casamento, então, há situações muito divertidas - para quem vê de fora, naturalmente:

O marido avisa (quando avisa) que vai sair com os amigos e ela pergunta:
- Você vai chegar tarde?
Ao que ele responde:
- Não, querida.
Mas ela ouviu:
-Sim, como sempre.
Conclui-se que a comunicação é fortemente influenciada pelo ambiente, pela habitualidade e pelos preconceitos.

Ou mesmo naquele dia que o marido chega em casa com um buquê de flores para a esposa, ela começa a chorar e lhe diz:
- Eu sabia que você tinha uma amante!
Neste caso, a comunicação foi permeada pela lógica feminina, se é que existe algo parecido com isso. Os resultados, neste caso, são imprevisíveis. Talvez seja melhor, nestes casos, não comunicar.

E quando você ouve um presidente de um país falar (qualquer semelhança com fatos reais terá sido mera coincidência):
- Eu nunca soube de nada!
O povo esclarecido ouviu coisa bem diferente.
Como o processo de comunicação implica em "tornar comum", se você comunizou com a mensagem do presidente, você foi conivente com ela.

E quando uma deputada federal expressa sua alegria esfuziante através de uma dança no congresso, também chamada de "dança da pizza", ela transmite um conteúdo muito maior do que ela seria capaz de imaginar ou de reconhecer a posteriori à imprensa e aos seus colegas de bancada. Ela colocou o âmago de sua alma ali, demonstrando não somente alegria, mas também alívio e absoluta conivência com a situação. Isto sem contar que, dado seu "porte rigorosamente atlético", ela bem que poderia receber o título de Miss Pizza - quatro queijos com borda (bem) recheada de catupiry, naturalmente.
A comunicação, neste caso, foi perfeita, sem que ela percebesse. Muito além do esperado.

Há outras situações muito características, onde a comunicação é fortemente influenciada pelo estado de espírito ou ainda, pelas expectativas diferenciadas entre emissor e receptor. Vejamos alguns exemplos típicos de comunicação nem sempre otimizados:

Como não poderia faltar, começaremos pelo treino de natação:
O técnico diz:
- Agora vocês vão fazer 800 metros, 50 forte, 50 moderado.
O nadador ouve:
- 800 metros, 50 fraco, 50 mole.

Ou ainda:
- 400 metros perna crawl
O nadador ouve:
- 400 metros perna peito, conversando bastante e ajudando com a mão, se precisar

Ou esta:
- São mil metros. Vocês vão quatro por um e voltam oito por um. (Para quem não nada, explico: esta proporção refere-se ao número de braçadas de crawl entre uma respiração e outra. Portanto, quanto maior o número, maiores a dificuldade e o cansaço decorrentes, pois menor é a oxigenação.)
O nadador ouve:
- Seja o que Deus quiser.

Ou mais esta:
- São duas seqüências de 400m, descansando 18 segundos, de 50m crawl progressivo bilateral corretivo, com virada rápida, seguido de 25m na seqüência medley invertido em VO2, seguido de 25m força, alternando palmateio, nado humano, filipina perna crawl e submerso - progressivo nas séries.
O nadador ouve:
- Siga o japonês da raia ao lado.

Ou ainda:
- 10 x 200 estilo, descansando 15", pra tempo, sendo o último tiro, o da morte!
O nadador de borboleta ouve:
- Agora ferrou de vez.

Ou quando o Oscar, meu nutricionista, me comunicou, em meu preparo para a Travessia:
- Você não pode mais comer carboidrato junto com gordura.
Eu entendi:
- O sabor da vida acabou. (Afinal, a maioria dos grandes prazeres culinários apresenta a combinação proibida acima.)

Mas nem tudo é problema de comunicação. Imaginem vocês que, ao chegar ao Brasil, Pedro Álvares Cabral encontrou uma terra repleta de uma espécie de árvore chamada de pau-brasil. Dizem que daí veio o nome de nossa terrinha, certo? Agora imaginem se houvesse uma falha de comunicação - na carta de Pero Vaz de Caminha (?) - e nos dessem o nome de "Pau"? Imaginem só como ficaria:
- Em que país você mora?
- Eu moro no Pau.

Ou pior ainda seria em inglês:
- Where do you live?
- I live in Pau - "wood", you know. (Vale a pena tentar explicar pros gringos para evitar mal-entendidos)

Por outro lado, haveria certas vantagens. Em tempo de Copa do Mundo, por exemplo, o lema para cada jogo seria:
- Pau neles!
Ou a musiquinha seria adaptada para:
- Pra frente, Pau, Pau, salve a seleção! - a métrica ficou horrível, mas fisiologicamente e politicamente correto.

Pensando bem, alguns provérbios aceitariam bem a mudança. Exemplo:
"Pau que nasce torto, morre torto." Vale bem para o nosso país, pelo menos para esse governo Pau Torto que por ora temos.

Bem, não importa a situação, cuidem bem da comunicação. Ela pode fazer toda a diferença em sua vida. A ponto de um comunicador maluco que vivia gritando "Vocês querem bacalhau?" ser um sucesso de audiência nas décadas de 60 e 70. Vocês lembram que, em seu programa, tinha até Cadillac? Era do modelo tala larga - medidas 90, 60, 90 - que, por si só, comunicava muito bem. Aquilo, sim, que era um enorme e retumbante sucesso de comunicação.
Melhor que isso, nossa Rita Cadillac era um autêntico exemplo bem sucedido de "CUMUNICAÇÃO".
Alguém discorda?

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© - Percival Milani