MARTINHA. NOSSA BRASILEIRA NO CANAL EM 2006

Entrevista realizada com Marta Mitsui Izo no dia 21 de julho de 2006, poucos dias antes de seu embarque para a Inglaterra, onde tentará a Travessia a nado do Canal da Mancha no início do mês de Agosto.

Percival: De onde veio, pra você, a idéia de atravessar o Canal?
Martinha: Era um sonho que carregava comigo desde a juventude, época em que eu treinava muito, era federada e competia pelo Clube Espéria, de São Paulo. Recentemente resolvi que chegara a hora de transformá-lo em realidade. O que aconteceu foi assim: no final de 2003, resolvi participar de um curso de relaxamento chamado 'Watsu'. É uma idéia de americanos que inventaram um Shiatsu dentro da água, resultando num Water Shiatsu, mais tarde abreviado para 'Watsu'. Neste evento, havia uma etapa lúdica com cartas de baralho com mensagens do tipo Seicho-no-Ie, você sabe, onde aparecem várias mensagens, como trabalho, determinação, sonhos, etc. E a carta que eu tirei falava sobre a busca dos sonhos, o que motivou uma discussão durante o evento sobre meu sonho até então adormecido. Quando a professora me questionou quando eu o completaria, eu respondi: "Posso fazê-lo em 2006." Naquele momento, ele tomou corpo e, no mês seguinte, já comecei a treinar. Minha decisão havia sido tomada.

P: Então foram dois anos e meio de treino?
M: Foi uma volta difícil. Eu já nadara quando jovem, mas minha experiência em travessias era praticamente nula. Só nadei algumas provas de uns 600 metros no Círculo Militar que, talvez, nem possa chamar de travessias. Os treinos mais fortes foram mesmo no último ano e meio.

P: E como foi a sua juventude aquática?
M: Treinei dos 9 aos 16 anos. Cheguei ao meu topo aos quinze anos, nadando pelo Espéria. Era federada e tudo o mais. Na época tinha um metro e sessenta e dois e pesava 48 quilos. O melhor de tudo era que eu não conseguia engordar, por mais que eu comesse...

P: Tá bom, mas não sai falando assim por aí que você apanha da mulherada!
M: Hahaha. É verdade. Mas na época eu era muito nova e um tanto imatura. Não tinha a cabeça pronta para acreditar com veemência em meus sonhos. Mas eu já sonhava em fazer o Canal. Desde meus quinze anos. Aí vieram os estudos, a faculdade, o trabalho e não havia espaço para amadurecer o sonho de uma jovem adolescente.

P: Onde você estudou e o que faz hoje?
M: Sou formada em Educação Física pela USP e hoje dou aulas de natação na Academia Fórmula, no Shopping Eldorado em São Paulo.

P: Foi lá que você treinou para o Canal?
M: Sim, o grosso do meu treinamento foi lá. Óbvio que também tive que nadar em represas e no mar, mas isso acontece mais aos fins de semana e mais nestes últimos seis meses. Durante a semana, passo mais tempo dentro d'água do que fora dela. Primeiro tenho que treinar. Depois, dou aulas na mesma piscina. Mal tenho tempo de me alimentar direito entre um e outro, o que não é bom para minha preparação. Tive que buscar algumas formas alternativas de conviver com essa situação. Depois, tenho mais treino.

P: Como têm sido seus treinos?
M: Há cerca de um ano, iniciei uma carga de treinamento diferenciada com a ajuda do Igor de Souza, que você bem conhece. Foram seis meses de trabalho de adaptação para outros seis meses de trabalho específico, com mais exposição a represas e treinos longos. Nesta segunda fase, ia inicialmente uma vez por mês na Billings. Depois aumentei para duas vezes e, neste último mês, entre travessias e treinos, tenho ido todos os fins de semana.

P: Quanto você tem nadado neste último mês?
M: Cerca de 50 quilômetros por semana. Entre piscina, mar e represas.

P: Então a última travessia de Ubatuba, de 7 km, no fim de semana passado, foi um passeio para você?
M: Foi super tranqüilo mesmo. Saí inteirinha e me senti muito leve na água salgada, haja vista que eu tenho nadado muito em água pesada, isto é, piscina e represas.

P: O que mais você fez de interessante nos treinos?
M: Fiz três treinos mais longos, além de duas provas 14 Bis. Foram dois treinos de seis horas, um em piscina e outro em represa e um de doze horas em piscina. Os de piscina eu nadei na própria Fórmula e sempre tive o apoio de todos por lá.

P: E nas 14 Bis, como foi seu desempenho?
M: A primeira 14 Bis foi no final de 2004. Não estava bem preparada - a maior prova que havia feito naquele ano havia sido Ubatuba, com 8 km. A 14 Bis tem 24 km e eu cheguei mortinha. Quase mudei de nome por isso. Hahaha. Passei vaselina nas axilas, mas não passei direito. Com três horas de prova, já estava tudo assando e tive que ir assim até o final. Naquele bendito ano, você se lembra, a maré não abaixou e nadamos muito tempo contra a correnteza. Faltou experiência. Foram 7h58min de sofrimento.
Já em 2005, foi tudo diferente e maravilhoso. Tinha meu próprio barco, estava bem vaselinada, havia treinado bastante e terminei a prova inteirinha, em cerca de seis horas e meia. A maré também ajudou.

P: Como foi o apoio da família e dos amigos?
M: Após eu ter me decidido pela ida ao Canal, minha mãe por acaso assistiu ao documentário na TV Cultura sobre a Renata Agondi e quase 'teve um troço'. A partir dali ela não queria mais que eu fosse, mas ao final, entendeu. Minhas irmãs inicialmente perguntaram: "Você está louca?" e depois entenderam os meus objetivos. Meu pai via diferente e acabou me dando o apoio que precisava para seguir com meus treinamentos.
Com os amigos, também havia duas fases: a primeira começava com a mesma pergunta "Você está louca?" Aí eu tinha que explicar o que estava por trás daquele sonho, o quanto era importante para mim e o pessoal passava a apoiar. Nesta segunda fase, recebi muita ajuda deles. Parecia que eles acreditavam mais em mim do que eu mesma. A gente está dentro do processo e as coisas não aparentam estar bem. Eles viam o esforço que eu fazia. Foram essenciais em minha preparação. Devo muito a eles.

P: E patrocínio? Pingou algum?
M: Não. Infelizemente não consegui. Eu tive até que vender o carro...

P: O Volvo? Não me diga...
M: Hahahaha. Recebi o apoio de amigos e de familiares para completar o dinheiro. Às vezes penso que, sem patrocínio, fico mais à vontade - sem amarrações. O desafio passa a ser ainda maior e fica mais gostoso.

P: Como foi a história do atestado médico, que precisa ser enviado à CSA, na Inglaterra, para obter sua autorização para a prova?
M: Ah. Essa foi engraçada. Eu precisava de um médico que atestasse sobre minhas condições físicas, o que é uma necessidade documental para nadar o Canal. Aí eu procurei o médico da Fórmula, que conhecia bem o meu preparo. Eu já havia feito vários testes: VO2, ergométricos, etc. e ele sabia que eu estava bem. A surpresa foi, ao pedir que atestasse minha saúde por escrito, quando ele perguntou: "Você quer que eu assine seu atestado de óbito?" Ao que, eu rapidamente respondi: "Só mesmo um louco para autorizar o que uma outra louca quer fazer." Rimos muito e ele assinou.

P: E o frio? Está preparada? Com todo esse volume de treino, você deu uma "enxugada" radical no corpo, não?
M: Apesar de ter emagrecido bastante - estou com o peso de 10 anos atrás - ainda tenho 25,5% de teor de gordura. Está mais do que adequado para o Canal. E continuo não conseguindo engordar. Tudo o que eu como eu queimo.

P: Que inveja! E os banhos, são frios?
M: Nunca gostei de banhos quentes. Sou mais pelo morninho. Mas não tenho insistido em banhos gelados, além de uma vez ou outra. Algumas represas estão bem friazinhas, como a de Nazaré Paulista, onde fiz alguns treinamentos. Isto já me basta.

P: Você já consultou a temperatura do Canal hoje? Visite o site da estação Sandettie (http://www.ndbc.noaa.gov/station_page.phtml?$station=62304), que lá tem todas as informações importantes para uma boa travessia do Canal. Olhando aqui (consulto na Internet), vejo que a temperatura da água está 63ºF.
M: E quanto é isso, em Celsius?
P: Confortáveis 17º C.
M: Ufa. Que alívio!

P: Muito bem, Martinha. O Brasil todo estará torcendo por você! Muito boa sorte e ótima Travessia. Vai dar tudo certo!

O que achou desta crônica? Dê sua opinião!

Seu e-mail:

Seu nome:

Cidade/ Estado:

Comentários:

-

© - Percival Milani