COPA DO MUNDO

Em tempo de Copa do Mundo, num país em que não existe outro esporte que não seja o futebol, fica difícil falar de outra coisa. Pode-se até dizer que brasileiro gosta também de Fórmula 1, mas, nestes dias, o comentário geral vai ser de que o Schumacher foi assistir ao jogo de decisão do terceiro lugar em Berlim entre Alemanha e Portugal. Assim, acabamos voltando novamente ao bom, velho e massificado futebol.
Não tem jeito. Futebol é considerado paixão nacional. Para mim, eu o considero doença nacional. Parece mais uma pandemia de falta de racionalidade movida a interesses puramente econômicos e manipulações Globais de uma massa pouco instruída que vive em um mundo de faz-de-conta.
Pois bem. Enquanto 185 milhões de brasileiros puxam para um lado, eu vou puxar para o outro. Vou falar de um esporte que ainda tem pouca audiência, que não dá IBOPE e que não movimenta as multidões. Vou trabalhar no terreno das hipóteses de um esporte que eu bem conheço - a natação em longas distâncias - para descrever minha opinião sobre o desempenho brasileiro - e de outras figurinhas - nesta última Copa do Mundo.

Vejamos, assim, o que aconteceria se simulássemos a participação dos variados personagens da Copa se os mesmos estivessem empreendendo uma Travessia do Canal da Mancha, da Inglaterra para a França, como se fossem nadadores ou técnicos de elite. E vamos ver no que vai dar.

Imaginem vocês o que aconteceria na Travessia do Canal da Mancha se o nadador fosse...

Ronaldo, o fenômeno: Ronaldo inicia sua travessia saindo de Shakespeare Beach, na Inglaterra, obviamente reclamando das bolhas nos pés. Após receber um cafuné da mãe, que foi assistir à sua largada, ele começa a prova nadando num ritmo muito fraco. Devagar demais - parece mesmo que não vai muito longe. O piloto e o observador se irritam no barco com sua velocidade. Seu técnico, que o acompanha do barco, não concorda que ele esteja lento e acredita que ele dará a volta por cima e ainda será o melhor do mundo naquele ano. O Fantástico faz sua leitura labial, onde ele diz, entre vários palavrões: "Esse cara é um craque. E ainda tinha gente que não queria que ele nadasse o Canal." Ou ainda: "Vocês querem ver ele nadar pra caramba? Vou jogar um sabonete para ele bem lá na frente. Ele é insuperável numa banheira." Alguns espasmos de velocidade o assolam, mas por pouco tempo. Não há preocupações com a hipotermia, visto que seu índice de gordura corporal permitiria que a Travessia fosse feita em pleno inverno europeu, quando a água está próxima dos 5ºC. É uma indicação clara de que ele estava em forma para a Travessia - em forma de barril, para ser mais preciso. Quando avisado de que a França está próxima, ele começa a tremer, não resiste e é retirado da água antes que morra de hipo-performance. A Travessia acabou para ele. E acabou muito mal.

Roberto Carlos: estranhamente, ao partir de Shakespeare Beach, após o sinal de largada, ele fica mais alguns minutos na praia arrumando as meias. Em verdade, ninguém entendia por que ele nadava de meias. Depois disso, inicia a Travessia com vontade, mas visivelmente com limitações de preparo físico. É seguramente um dos mais velhos na tentativa. Ele nada puxando para a esquerda. Parece mais interessado em bater o recorde de participações do que em cumprir sua parte na Travessia. Nas primeiras etapas ele até que se esforça, mas não demonstra a vitalidade de quatro anos atrás, quando sua Travessia fora completa. No entanto, após metade da competição, já em águas francesas, o nadador estranhamente parou de nadar e foi visto pela última vez arrumando as meias, imóvel no mar. E lá ficou até que o sonho não fosse mais possível. Dizem que alguns nadadores franceses foram vistos passando rapidamente por ele, sem que o mesmo sequer esboçasse reação. Será que ele congelou? - pergunta a imprensa internacional. Quando perguntado sobre o ocorrido, enervado, ele respondeu: "Eu quero é que Zidane."

Cafu: analogamente ao caso acima citado, este também não apresenta ritmo em sua Travessia. Sua trajetória, no entanto, é muito diferente; ele nada mais pela direita. Não acerta uma braçada. O piloto inglês, ironicamente sugere que ele vá jogar futebol, por que, nadar definitivamente não é sua especialidade. Também abandonou a Travessia tremendo muito, após avistar a França.

Ronaldinho gaúcho: cotado como uma das grandes esperanças brasileiras para a Travessia, não conseguiu encaixar um bom estilo. Era peça importante do "quadrado naufrágico", que aparentemente, cumpriu sua missão: naufragou. Passou as três primeiras etapas sem nenhum brilhantismo, mas não esteve ameaçado. Seu rendimento foi baixo. Diz a imprensa que seu técnico, que o acompanhava do barco, não permitiu que mudasse seu estilo, o que o deixou subaproveitado. Sucumbiu próximo à costa francesa e não parecia preocupado com isso. Ao retornar à terra firme, deu uma festa de arromba que mostrava o quanto, de fato, aquela Travessia representava para ele: nicas de biribitibas.

Kaká: começou nadando bem, com bom ritmo. Chegou a ser eleito o melhor nadador brasileiro na primeira etapa da Travessia, mas logo em seguida, provavelmente inspirado pelo baixo rendimento dos demais nadadores, também foi piorando seu estilo gradualmente até que caiu na mesmice do grupo. Foi retirado da água à força pouco depois de avistar a França.

Robinho: nadador inexperiente, em sua primeira Travessia. Cheio de vontade e determinado a mostrar resultado. Não treinava direito e teve uma contusão que quase o tirou da competição. Deu poucas pedaladas, mesmo por que pedalar dentro da água não o levava a lugar algum. Sucumbiu ao entrar em águas francesas e não chegou nem perto da costa. Certamente terá mais duas ou três oportunidades de tentar a Travessia. Recomenda-se a mudança do técnico que o acompanha do barco para que seja bem-sucedido em sua próxima tentativa.

Zinedine Zidane: Nadou firme até a final. Começou fraco, mas seu técnico, que não falava uma palavra e não emitia um sentimento sequer, ao alimentá-lo com maltodextrina, usou de sua liderança e disse-lhe as palavras inspiradoras: "Allez, Zizou!". Não deu outra. O homem virou uma fera na segunda metade da Travessia. Foi eleito o melhor nadador do ano e inspirou seus colegas de equipe. Quando um barco italiano se aproximou, dizem os presentes que ele afundou o barco com uma cabeçada - direto em seu casco azul. Perguntado pela imprensa por que ele assim o fizera, respondeu que a tripulação do barco o ofendeu várias vezes. Da primeira vez, buscando denegri-lo por ser filho de argelinos. Da segunda vez insultando sua família, em especial sua irmã. Mas, quando lhe falaram que ele terminaria sua carreira nadando as travessias da FUP e ganhando o "Troféu Quase Lá", aí ele não agüentou a baixaria e partiu para a agressão. Resultado: foi expulso pouco antes do final e não atingiu seu objetivo.

E agora imaginem o que aconteceria se os técnicos ou conselheiros que tanto conhecemos estivessem nos barcos comandando seus atletas na Travessia:

Zagallo: estaria no barco colaborando com o Parreira dando-lhe conselhos de alto teor profissional e baixo nível de esoterismo, que lhe são característicos. Acompanhe algumas de suas declarações, verdadeiras pérolas esportivas e de cunho eminentemente técnico:
1. Vamos fazer a Travessia no dia 13 de agosto, preferencialmente se for sexta-feira.
2. Prefiro água a 13 graus.
3. 'Canal da Mancha' tem 13 letras.
4. 'Brasil afundou' tem 13 letras.
5. 'Quem apaga a luz?' tem 13 letras.
Dizem que depois da metade da travessia ele ficou no porão do barco, vomitando e escrevendo em seu diário: "'Zagallo mareou' tem 13 letras."

Parreira: sentado no convés, conversa com sua equipe técnica calmamente durante a Travessia. Calmamente DEMAIS, para ser mais objetivo. De cada dez palavras pronunciadas, onze são de baixo calão. Comandava - ou pelo menos pensava comandar - seus nadadores sem expressão alguma. Depois da leitura labial do Fantástico, não saiu mais da cabine, onde ficava só contabilizando os milhões de dólares ganhos para fazer aquele fiasco. Os nadadores sob seu comando, um após o outro, sucumbiam ante à força das correntezas francesas. Não havia mais comando. O barco virou e os sonhos brasileiros naufragaram com ele. E o Parreira pouco se importou com o fato.

Felipão: a cada Travessia, ele grita com seus nadadores, impulsionando-os a seguir nadando. Não pára um minuto sequer. Quando alguma coisa não vai bem, reclama com quem pode: com seu atleta, com o observador, com o piloto, com a Marinha Inglesa. Da Marinha Francesa, infelizmente, ele não conseguiu grande ajuda. Se o atleta desanima, ele pula na água e nada junto com ele. Se o piloto não tem traquejo, ele mesmo assume o comando. Se o barco quebra, ele pula na água junto com a comissão técnica e, no braço, passam a rebocá-lo. Se tudo o mais parece não dar certo, ele é capaz de pular do barco, ir até a costa francesa e tentar puxar o continente até seu nadador. Não há nada impossível para ele. Fez muito bonito, apesar das fortes correntezas francesas contrárias tão comuns naquela fase.

Quaisquer semelhanças entre estas variadas histórias de Travessias do Canal da Mancha e a realidade da Copa do Mundo não terão sido mera coincidência.

Bem. Alegro-me que algumas poucas linhas puderam deixar de lado a futebolmania brasileira e fazer menção a um evento esportivo tão diferenciado como este. Na terra do futebol, esta foi apenas uma tentativa de mudança da cultura massificante que reina neste país.
Mas sigamos em frente, temos ainda muitas outras coisas para mudar. Quer exemplos? Posso dar-lhe nove deles, um para cada dedo das mãos.
Mas isso fica para uma próxima.
Acorda, Brasil!

O que achou desta crônica? Dê sua opinião!

Seu e-mail:

Seu nome:

Cidade/ Estado:

Comentários:

-

© - Percival Milani