O CANAL DA MANGA

Tem coisas que são realmente surpreendentes na vida. E o inesperado é, com toda certeza, um de seus fatos mais corriqueiros. Pois comigo aconteceu nesse projeto da Travessia do Canal da Mancha. Curioso e adorador de etimologia, vivia a me perguntar por quê o Canal levava este nome.
Em meus livros sobre o Canal, descobri que os franceses o chamavam La Manche. Os espanhóis e os portugueses, cujas culturas são extremamente fortes em nosso meio, também o denominam pelo mesmo radical. Isso me deixou por um grande espaço de tempo convencido de que havia ali alguma coisa a ver com uma tal de "Mancha".

Eu olhava os mapas, consultava a Internet, perguntava aos amigos:
- Por quê Mancha? Haveria algum fato histórico ou geográfico por trás deste nome?
As respostas eram muito divertidas, pois ninguém ao certo sabia dizer, mas todos adoravam arriscar uma resposta.
- Representa a mancha de sangue de tantas guerras que se travaram no Canal, disse um.
Outro, com pouca ou nenhuma noção temporal, arriscou:
- Foram os sucessivos derramamentos de óleo no Canal. Daí o nome.
O mais convincente foi um amigo que relacionou o Canal à região "de la Mancha", no centro da Espanha. Esta região ficou mundialmente conhecida pelas mãos de Miguel de Cervantes em sua majestosa obra universal intitulada "Don Quijote de la Mancha", que dispensa aqui maiores comentários.
Um outro amigo - esse dos grandes - chegou a comparar o feito de minha Travessia do Canal às nobres e corajosas atitudes de Dom Quixote. Ele me chamava de Percival de la Mancha. Fiquei obviamente lisonjeado, comprei o livro e pus-me a conhecer a história mais de perto. Recomendo-o a todos. É um clássico.

Andava cada vez mais convencido que haveria alguma relação geográfica de proximidade entre as regiões que pudesse explicar o uso do mesmo nome. Até o dia em que cruzei com o inteligente e animado texto do Professor Cláudio Moreno que discorria sobre o fato em todos os detalhes e com um conhecimento de causa inquestionável.
Em primeiro lugar, o raciocínio lógico de que os primeiros povos a dar um nome ao Canal foram, seguramente, os franceses (La Manche) e os ingleses (English Channel), dadas as contigüidades de suas respectivas fronteiras. Os demais povos haveriam, de uma forma ou de outra, de adaptar o conceito cultural dos franceses ou dos ingleses.
Fica óbvio que nenhum outro país adotou o termo de Canal Inglês - quem sabe alguma de suas colônias pelo mundo afora... Restou somente a versão francesa: "La Manche".

Aí entra a explicação etimológica: Manche, em francês, quer dizer manga. É isso mesmo, como a manga de uma camisa. No caso específico, trata-se da manga de um gibão - que é um tipo de casaco antigo. O punho é exatamente o estreito de Dover, onde as travessias a nado acontecem. Ao se observar o mapa do Canal, percebe-se a evidente razão da comparação.

Fiz um esforço Photoshópico para buscar exemplificar na figura abaixo o acima descrito:

E não é que tanto os portugueses como os espanhóis não se atentaram ao fato e traduziram o termo pelo que acharam mais próximo? Caíram no velho conto do falso cognato. E nós, brasileiros, fomos atrás, como não poderia deixar de ser.
Os italianos tiveram mais opinião e o chamam La manica (a manga). Os alemães, precisos como sempre, o chamaram de Ärmelkanal (Canal da Manga).
Isso quer dizer: não tem conversa. É Canal da Manga e ponto final. Ainda bem que a Academia Brasileira de Letras não entrou nessa história. Já imaginaram se eles decidem corrigir o fato aqui no Brasil?

Pensando bem, poderia ter sido ainda pior.
Sabe-se que Napoleão, ao planejar a invasão da Inglaterra, foi perguntado por seus oficiais:
- E como faremos com o Canal? inquirindo-lhe sobre a evidente desvantagem tática que levavam os franceses em suas embarcações ao afrontar os ingleses estrategicamente protegidos em seus paredões - os White cliffs - que, já naquela época, abrigavam verdadeiras fortalezas de guerra.
Ao que ele respondeu, com toda sua determinação militar:
- Trata-se de um mero fosso a ser pulado.
Já pensou? Que humilhação? Você se esforça e dá o melhor de si para atravessar o Canal da Mancha e vem um francesinho metido a besta e diz que aquilo é apenas um fosso? E pior, é o fosso da Manga? É muita desfeita vinda de uma pessoa só!
De nossa parte só nos resta dizer:
- Bem feito. Com aquele narizinho empinado, ele tinha mesmo é que perder a guerra.

O que achou desta crônica? Dê sua opinião!

Seu e-mail:

Seu nome:

Cidade/ Estado:

Comentários:

-

© - Percival Milani