GRAÇAS A DEUS E À NIMESULIDA

A natação é um esporte individual, certo?
Errado. Não há nada mais impreciso do que a afirmação acima. A natação exige, indiscutivelmente, esforços individuais. Isso é inegável. Mas conquistar um desafio do porte de uma Travessia do Canal da Mancha por seus próprios meios e sem a colaboração de ninguém é uma utopia. Por essa razão, resolvi agradecer a todos os que, direta ou indiretamente, colaboraram para a consecução de um sonho.

Perdoem-me desde já se algum nome for omitido. Estou convencido que a lista é humanamente impossível de ser completa.

Em primeiro lugar, tenho que agradecer a Deus, que me propiciou todas as condições para que eu fizesse esta travessia. Desde as condições mentais e psíquicas que movem e impulsionam os homens em seus sonhos até as extremas condições físicas que Ele permitiu que suportasse. Não foram raros os momentos em que toda autoconfiança que você tem é submetida a provas de toda sorte. Quantas vezes surpreendi-me pedindo:
- Deus, que esta sinusite passe logo para eu voltar a treinar! O verão não dura para sempre na Inglaterra...
- Deus, por que é que eu não consigo acordar às cinco da manhã quando a água da piscina está a 17 graus? Será que eu sou fraco? (Mais tarde percebi que eu não era fraco, era apenas normal).
- Deus, será que essa dor no ombro não vai passar?
- Deus, será que vai parar de ventar? (Esta foi durante a Travessia, para reduzir a altura média das ondas, melhorar meu rendimento e aumentar minhas chances de sucesso).
Seja como for, não tenho do que reclamar. Ele sempre me ajudou e me confortou - mas suas palavras de conforto só são ouvidas sob muito suor e dedicação. Cheguei à conclusão que, na moleza, seu ouvido espiritual não funciona. Acredito que, se houvesse algum recado dEle para mim, seria o seguinte:
- Percival, não tem almoço de graça! Desce o braço aí que eu te dou o respaldo daqui.
Isto tudo sem mencionar os momentos de privação, tão freqüentes durante a preparação para o Canal, que merecem uma história à parte. Aguardem para breve...

Agradeço também a meus pais que sempre acreditaram em mim - até mesmo em loucuras como essa em que me meti. Antes da travessia, minha mãe vivia me perguntando:
- Por que você foi entrar numa aventura dessas? Isso não é muito arriscado?
Antes de minha viagem, no entanto, o conforto de sua bênção teve um valor indescritível:
- Que Jesus te abençoe em cada braçada, meu filho!

E foi assim que eu viajei para a Inglaterra: abençoado. Nos dias que antecederam minha Travessia em que me ambientava às águas frias do Canal, minha mãe caiu, bateu a cabeça e passou vários dias internada numa UTI, com coágulos junto ao cérebro. Eu nada soube até depois de minha travessia - fui poupado pela família para manter a calma e atingir meu objetivo.
Na volta tive a honra de receber algumas homenagens - uma das quais promovida pela prefeitura Municipal de São Caetano do Sul - para a qual meus pais foram convidados. Acho que foi um ótimo momento para eles também. Afinal, tratava-se de mais uma coroação em suas vidas.

Agradeço à minha família - esposa e duas filhas - pelo apoio que recebi antes, durante e após a travessia. Acredito que, no início do projeto, elas talvez não entendessem direito o que significava essa tal de Travessia. Lembro-me de uma noite de sábado, quando estávamos confortavelmente assistindo a TV Cultura em nosso apartamento na praia quando foi reprisado - o que era muito comum - um documentário produzido pelo Marcelo Teixeira sobre a morte da brasileira Renata Agondi no Canal nos idos dos anos 80. Imaginem a estupefação de minha filha menor, ao perguntar:
- É pra lá que o papai vai?
A partir de então, foi um misto de questionamentos, explicações, declarações acaloradas de adolescentes, alegria e preocupação (não nesta ordem e prioridade). Hoje elas sentem orgulho do fato.

Ao meu irmão Paulo, que me acompanhou nas últimas etapas de meu treinamento e, recém recuperado da extração de uma pedra nos rins, viajou até a Inglaterra e teve papel importante no treinamento pré e durante a Travessia, como parte da equipe de apoio que acompanha o nadador e lhe dá o suporte necessário.

Ao técnico Agnaldo Arsuffi - meu fiel e inseparável preparador - que dispendeu seu tempo pessoal com este projeto por que também acreditava que este sonho seria possível. Orientou-me nos últimos oito meses de preparação e foi, sem dúvida alguma, o grande arquiteto fisiológico de minha etapa preparatória. Quando do início de seu trabalho comigo, ele dispunha de um pseudo-atleta em busca de acertar, cheio de boa vontade, mas sem a técnica, sem a condição muscular e respiratória e sem o nível de orientação adequado. Muitas lições ele me ensinou - na água e nos aparelhos de musculação, até então novidades para mim.
O melhor do Agnaldo era que, com ele, não havia espaço para não dar certo. Ele entrava na água com o nadador se for necessário e não tem mau tempo: pode ser no mar revolto da Inglaterra, onde treinamos com ondas de dois metros de altura - ele ao meu lado - ou nas calmas e frias águas do Canal de Santos, iniciando o treino às duas e meia da manhã em pleno inverno.

Ao meu nutricionista Oscar Naranjo - a quem chamo de Midas dos esportes - que teve a competência de transformar um cansado e mal nutrido executivo com aspirações a atleta num esportista competitivo, preparado e, acima de tudo, autoconfiante para a Grande Travessia. As lições com ele aprendidas não são exclusivas para esportistas - se aplicam todos os dias para qualquer um. Nossas consultas eram como um confessionário. Afinal, o nutricionista tem de conhecer todos os detalhes de sua alimentação. Numa linguagem jocosa, seria mais ou menos assim:
- Oscar, eu pequei. Comi carboidrato no jantar de ontem!
Eu ainda lembro dele todos os dias, a cada refeição que faço. E tento visitá-lo sempre que posso, para não sair do bom caminho.

À Dra. Ana Cláudia, excepcional profissional da Careplus, daquelas que põem a medicina em primeiro lugar. Orientou-me frequentemente durante meu período de treinamento, cuidando de todas as minhas crises: sinusite, inflamações, dores, tosses, gripes, enjôos e até da quase fatal dispnéia suspirosa diagnosticada a apenas 15 dias de minha viagem. Sempre bem humorada e disposta a colaborar, comandava uma equipe igualmente proativa e interessada em meu sucesso.

Agradeço também aos inúmeros amigos nadadores e técnicos - menções especiais ao Mirco Cevales que tanto me orientou no início dos treinamentos e ao Ademir Paulino, da Cia Athletica, que, junto com meus outros companheiros de treino, formávamos o Comando da Madrugada, nome dado ao grupo pela hora extremamente incomum que caíamos na água.

Aos amigos e parentes que manifestaram sua solidariedade de diversas maneiras: em seus telefonemas, em seus e-mails, seus abraços, suas bênçãos e votos de sucesso. Todos absolutamente positivos quanto ao sucesso da empreitada. Aos colegas de trabalho que, sabendo de minha difícil transição profissional daquele momento, forneceram seu apoio incondicional e vibraram comigo ao telefone logo na primeira noite após meu feito.

Ao Celso Saviolli, que lutou bravamente por um apoio financeiro ao projeto, mesmo que isso significasse entrar em contato com as revistas Contigo e Caras.

Meu obrigado a um personagem infeliz que, em sua pequeneza, afirmou categoricamente que eu iria morrer na tentativa. Havia vários personagens negativos assim no meio empresarial, mas somente um chegou a esse absurdo. Mas a descrença de alguns funciona, para os homens de bem, como um motivo a mais para vencer. Aprendi com ele uma grande lição: a que ponto chega a mediocridade do ser humano. E que ela é sempre circunstancial e interesseira.
Aprende-se tanto com os ignorantes quanto com os sábios. A primeira opção é, contudo, mais dolorosa e menos crível - mas igualmente útil para a vida.

Ao Michael Oram, Secretário Honorário da Federação dos Nadadores e Pilotos do Canal, que organizou a travessia e ao seu filho, Lance, que foi nosso piloto - por vezes inapto - mas que soube passar o timão ao hábil Neil Streeter.

Até à Rede Globo devo agradecimentos pela excelente - mas ligeiramente massificada - reportagem a respeito de meus treinamentos para a Travessia que foi veiculada como um incentivo aos executivos para que desenvolvessem hábitos mais saudáveis de vida.

E, como não poderia deixar de ser, após centenas de quilômetros de treinamentos que exigiram demais dos ombros de um esforçado nadador, meu agradecimento à Nimesulida, eficaz antiinflamatório que resolveu tantas e tantas vezes meus medos e ansiedades com as dores articulares.

Este foi, enfim, de forma resumida, meu espectro de colaboradores. Todos eles foram importantes - alguns, porém, foram essenciais.

Assim como vocês, que hoje me lêem e me dão incentivo para continuar.
Com vocês, reparto a minha singela vitória.

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© - Percival Milani