SE ACHANDO

Aquele dia seria um dia diferente, afinal, o ambiente era diferente. Tudo ali era novidade. Ele nunca estivera num ambiente de piscina antes. Freqüentava todo o restante da academia e em todas as práticas, gostava de exibir o seu porte "quase atlético", mal e mal conquistado a duras e irregulares séries de exercícios porcamente conduzidos nas mais variadas especialidades ali oferecidas.

Na musculação, adorava fazer um supininho bem leve, mas com expressão e gestos de campeão de fisicultura. Se o espelho fizesse crescer o bíceps, ele seria o campeão da academia.
Nas aulas de spinning, o importante era pegar a bicicleta ao lado da bonitona da turma e ter uma garrafinha de água para oferecer e começar a conversa.
O squash ele só praticava quando a loiraça que vinha à noite se dignava a jogar. Ou a assistir.
No body pump, ali era difícil, pois tinha de fazer cara de que tudo estava bem quando ele estava mesmo era morrendo. Por essas e outras, era raro vê-lo por aquelas paradas.
Já tinha feito até yoga, por que a morenaça da tarde costumava freqüentar o pedaço.

Mas a última fronteira ainda estava por ser vencida, aquela região da academia que lhe era completamente estranha : o conjunto aquático. Não estava acostumado a se expor tanto.
Corria o risco de perceberem que sua barriguinha tinha crescido ou que seu bronzeado não estava tinindo. Será que valia a pena toda a exposição? E a sua imagem, como ficava? E se as mulheres ali não fossem tão esculturais como lhe haviam contado seus "amigos acadêmicos"? Isso tudo sem contar o fato de ele não nadar lá essas coisas.

Entrou e percebeu a agitação da piscina. Todos ali nadavam e levavam aqueles exercícios bem a sério. Dentro d'água, ninguém conversava - aquilo até pareceu-lhe pouco sociável. Mas ele estava decidido a tentar buscar o mesmo sucesso pessoal que seu oco interior lhe dizia ter proporcionado nas outras atividades. Andou alguns passos e logo parou, ficando a observar os atletas em suas idas e vindas.
- Meio monótono, isso aqui. - pensou.

Foi quando a primeira nadadora, de nome Camila, chegou na borda e, imediatamente, olhou em sua direção.
- Eu sabia que logo elas iriam começar a reparar em mim - pensou. E olha que ela é bem apresentável, hein! Esse maiozinho vermelho-paixão já me conquistou!

Imediatamente encolheu a barriga e estufou o peito, como nos rituais onde o macho busca sinalizar para sua fêmea suas claras intenções de acasalamento.
Chegou a segunda nadadora, a Renatinha. Imediatamente voltou-se também para onde ele se encontrava e olhava com atenção. Não tirava os olhos dali.
- Isso aqui está ficando cada vez melhor, - pensou. Veja só como eu chamo a atenção delas! Será que começo a me alongar agora mesmo ou deixo para quando o professor me chamar?

E iniciou algumas espichadelas daqui e dali. Braços para cima, depois para os lados em quadratura perfeita. Alongando e expondo a musculatura como se aquilo fosse uma atitude corriqueira, sem importância.
Chegou a terceira nadadora, a Priscila, agora junto com outros nadadores. Esta última até esticava o pescoço para olhar na mesma direção - a sua, é claro - como que desviando dos outros recém chegados.
- Estes nadadores aí não percebem que estão na frente? - pensou. Deixem a Priscilinha olhar pra mim! Acho que ela notou meu corpo atlético, minha fisionomia altiva, meu caráter íntegro ...

E cada vez caprichava mais nos alongamentos.
Foi neste momento que a Camila esboçou uma reação para falar. Como não havia mais ninguém por ali, a iniciativa era mesmo para com ele. Parecia que seu ego iria explodir de tanto sucesso em intervalo tão curto de tempo.
- Já sei. Agora vai rolar um papo manero - pensou. Vamos marcar para conversar fora daqui? Será que eu dou bola pra Camila, pra Renatinha ou pra Priscila? Estão todas olhando tanto que já estou até seco!
Foi quando a Camila finalmente tomou a iniciativa e dirigiu-se ao rapaz em alto e bom tom:
- Ô cara. Dá pra sair da frente do cronômetro? Ou vai ficar aí plantado o dia inteiro?

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© - Percival Milani